Nilton César planejava turnê de despedida no Triângulo Mineiro antes de falecer
Se Ituiutaba é o "pedaço de Brasil" do cantor Nilton César em sua música "Rancho da Minha Terra", o artista representava uma parte significativa da cultura do Triângulo Mineiro para todo o país. E era justamente por essa região que ele planejava se despedir dos palcos com uma turnê especial, antes de falecer no dia 28 de janeiro, aos 86 anos, em São Paulo.
"Eu vim cantar aqui o rancho da saudade, o rancho da cidade, da terra onde eu nasci, Ituiutaba, meu pedaço de Brasil..." – esses versos, que se tornaram um hino para a cidade, agora ganham um significado ainda mais emocionante com a revelação dos planos não concretizados do cantor.
Turnê planejada para março de 2024
Nesta quarta-feira (3), completou-se uma semana desde a morte do artista, causada por uma isquemia seguida de parada cardiorrespiratória. O g1 conversou com Airton José Guimarães, primo e amigo próximo de Nilton César, que revelou detalhes do sonho que não pôde ser realizado.
Segundo Airton, ao se aproximar dos 90 anos, Nilton sentia que seu corpo já não suportaria por muito tempo a rotina intensa de shows. O primo, que desde jovem acompanhava o cantor como amigo e produtor informal, foi um dos principais articuladores da turnê de despedida.
A turnê estava programada para começar em março e já tinha nome definido: "Nilton César - Uma Voz Que Canta e Encanta". O roteiro incluiria apresentações em várias cidades do Triângulo Mineiro e regiões vizinhas:
- Ituiutaba
- Campina Verde
- Iturama
- Goiás e Paranaiguara
- Frutal
- Prata
- Santa Vitória
- Capinópolis
"Tem um clube de Uberlândia que chegou a comentar que faria o show dele na cidade, mas não deu certo. A gente conversou muito por telefone sobre essa turnê porque sabíamos que, com a idade mais avançada, ficaria cada vez mais difícil. Infelizmente não deu tempo", lamentou Airton Guimarães.
Trajetória artística e legado musical
Nilton César nasceu em Ituiutaba no dia 12 de agosto – data corrigida pelo primo, já que muitas fontes erroneamente citavam 12 de junho. "Não sei de onde tiraram que foi em 12 de junho. Não foi. Ele nasceu no dia 12 de agosto e a parteira foi minha bisavó paterna, Rita de Cássia", contou Airton.
Para o primo, 15 anos mais novo, Nilton César tinha o comportamento típico de um leonino: carismático, líder, vaidoso e criativo. Ele deixou Ituiutaba em 1962 com destino ao Rio de Janeiro, dizendo ao pai que tentaria a carreira de cantor e estudaria. "Não estudou nada, só cantou mesmo e sempre foi muito bom. Venceu o primeiro concurso de calouros que participou, do programa do César de Alencar na Rádio Tupi", recordou Airton.
Entre 1964 e 2004, Nilton César gravou 21 álbuns de estúdio. Suas músicas, que ele compôs e interpretou, carregam a marca de um homem elegante e galanteador, sempre preocupado em oferecer o melhor ao público desde seus primeiros shows.
Auge nos anos 1970 e sucesso internacional
O cantor viveu o auge da carreira nos anos 1970, período em que era presença constante nas rádios e programas de auditório populares da televisão brasileira. "Férias nas Índias", de 1971, é considerado seu maior sucesso e marcou o momento em que começou a se distanciar do movimento da Jovem Guarda, seguindo um caminho mais pessoal.
De canções românticas a guarânias e músicas populares, Nilton César deixou um legado marcante. "A Namorada Que Eu Sonhei" é uma de suas composições mais emblemáticas, com versos que se tornaram conhecidos: "Receba as flores que lhe dou/ E em cada flor um beijo meu/ São flores lindas que lhe dou/ Rosas vermelhas com amor".
Segundo Airton Guimarães, Nilton César alcançou reconhecimento internacional que poucos artistas brasileiros de sua época conseguiram. "Ele fez muito sucesso nos Estados Unidos, na Europa e na Ásia", afirmou o primo, destacando que até uma princesa em Portugal, durante o período monárquico, teria se encantado pelo cantor e pedido que ele ficasse no país.
Laços profundos com Ituiutaba
Nilton César sempre manteve fortes conexões com sua cidade natal. Seu nome artístico, inclusive, surgiu como homenagem a um músico local chamado César França, já que seu nome de batismo – Nilton Guimarães – poderia ser confundido com outro artista da época.
O cantor também atuava nos bastidores de festas e exposições agropecuárias em Ituiutaba. Em 1951, teve um momento emblemático quando substituiu temporariamente o consagrado Nelson Gonçalves. "Ele deu um conselho ao Nilton, dizendo que se quisesse seguir carreira como cantor não poderia mexer com 'mulherada nem com drogas'", contou Airton sobre o encontro entre os dois artistas.
Mesmo no auge da fama, quando fazia quase 20 shows por mês, Nilton César nunca esqueceu suas raízes. Nos últimos anos, ainda realizava dois ou três shows mensais, muitas vezes com valores simbólicos na região do Triângulo Mineiro. "Ele fazia até show sem cobrar cachê na cidade, cobrava o básico, transporte, alimentação, do tanto que amava o que fazia aqui", revelou o primo.
Reconhecimento de conterrâneos e legado
José Carlos Café, funcionário público que assistiu a quase todos os shows do cantor em Ituiutaba, descreveu Nilton César como "muito atencioso, humilde, cordial com todo mundo". O último registro dos dois juntos foi em 2018, durante um evento promovido pelo Sesc em Uberaba.
Moacyr Franco, outro artista nascido em Ituiutaba, prestou sua homenagem ao amigo e conterrâneo: "Nilton César para mim é mais do que legado. Tanto ele quanto eu vivemos a mesma época na mesma cidade e fizemos carreira paralelamente. Eu nunca fui nada no exterior, ele foi! Guardo por ele admiração e tenho muito orgulho de ter vivido parte da minha adolescência no mesmo lugar que ele".
Nilton César deixa a companheira de mais de 40 anos, Mara, e dois filhos, Maicon e Maxuel, além de um legado musical que continua a encantar gerações. Sua história se entrelaça profundamente com a cultura do Triângulo Mineiro, região que ele tanto amava e onde planejava realizar sua última turnê – um sonho que, infelizmente, não pôde ser concretizado.
