A escolha do sertanejo como fio condutor da novela 'Coração Acelerado', atual trama das 7 da TV Globo, está longe de ser um acaso. Esta estratégia se insere em um amplo repertório da emissora, que há décadas utiliza a música como um motor narrativo poderoso. O objetivo é claro: conquistar e reter audiências, especialmente os mais jovens, que migraram parte de seu consumo para as plataformas de streaming.
Uma tradição que vem de longe
A coluna GENTE relembrou algumas produções emblemáticas onde a trilha sonora assumiu um papel central. A prática não é nova e demonstra um cálculo preciso para dialogar com o público.
Em 2001, a novela das 6 'Estrela-Guia', escrita por Ana Maria Moretzsohn, marcou a estreia da cantora Sandy como protagonista na teledramaturgia. A trama, que abordava espiritualidade, se valeu da enorme popularidade da dupla Sandy & Junior no início dos anos 2000 para fisgar o público adolescente com uma trilha essencialmente pop.
Os fenômenos que transcenderam a TV
Talvez o maior exemplo de sucesso nessa fórmula seja 'Cheias de Charme', de 2012. A novela criada por Filipe Miguez e Izabel de Oliveira explorou a cultura pop com as Empreguetes, interpretadas por Taís Araujo, Leandra Leal e Isabelle Drummond. O vídeo 'Vida de Empreguete' se tornou um fenômeno viral, superando a marca de 10 milhões de visualizações online na época.
O legado da trama foi além da excelente audiência. Ela gerou uma série de produtos derivados, incluindo trilha sonora, DVD e até o livro 'Cida, a Empreguete – Um Diário Íntimo', focado na personagem de Isabelle Drummond. Claudia Abreu e Ricardo Tozzi completavam o elenco de sucesso.
Rock, pop e os anos 90 no centro da trama
A música continuou a ditar o ritmo das produções. Em 2014, a 22ª temporada de 'Malhação', intitulada 'Sonhos' e escrita por Rosane Svartman e Paulo Halm, transitava entre uma academia de artes marciais e uma escola de artes. A trilha, com pop e rock, era a marca registrada para o público adolescente, mesclada aos romances e conflitos típicos da série. A produção foi indicada ao prêmio internacional Emmy Kids em 2015.
Dois anos depois, em 2016, foi a vez do rock ganhar holofotes. 'Rock Story', criada por Maria Helena Nascimento com supervisão de texto de Ricardo Linhares, também na faixa das 7, girava em torno de Guilherme 'Gui' Santiago (Vladimir Brichta), um ex-astro do rock dos anos 1990 em crise. Com um elenco que incluía Nathalia Dill, Alinne Moraes e Rafael Vitti, a trama apostou no apelo do rock nacional e internacional para cativar o público jovem.
Já 'Verão 90' (2019) fez uma viagem no tempo. A novela de época de Izabel de Oliveira e Paula Amaral, protagonizada por Isabelle Drummond e Rafael Vitti, mergulhou no mundo glamouroso da TV e da música daquela década. A trilha não se limitou ao pop, abraçando também o dance music, o axé e hits icônicos, apresentados em programas de TV fictícios, boates e festas.
Música como estratégia de conexão
O caso mais recente é justamente 'Coração Acelerado', que explora o universo do sertanejo. A estratégia repete a lógica bem-sucedida das antecessoras: usar um gênero musical popular e contemporâneo como pano de fundo e elemento propulsor das histórias de amor e drama.
Essa viagem sonora pela teledramaturgia da Globo mostra que a música é muito mais que um simples acompanhamento. Ela é uma ferramenta narrativa intencional, um personagem que ajuda a definir o tom da trama, atrai faixas etárias específicas e cria identificação imediata com o espectador. Em um cenário de disputa acirrada pela atenção do público, transformar a trilha sonora em protagonista continua sendo uma jogada inteligente e eficaz.