Milton Nascimento e a visão latino-americana em 'Geraes'
Na década de 1970, Milton Nascimento consolidou uma obra que buscou incessantemente a conexão do Brasil com os países latinos da América hispânica. Esse movimento de integração, iniciado há cinco décadas, encontra ressonância em 2026, quando a luta contra figuras como Donald Trump ganha força global através de astros como o porto-riquenho Bad Bunny. O álbum Geraes, lançado em 1976, é um marco nessa jornada, expandindo os laços musicais com nações vizinhas e sintonizando-se com o orgulho latino que hoje pulsa no país.
As raízes hispânicas e a colaboração continental
Antes de Geraes, Milton já havia explorado atmosferas hispânicas em trabalhos como Clube da Esquina (1972), com canções como San Vicente. Sucessor de Minas (1975), o álbum de 1976 aprofundou essa integração, incluindo participações emblemáticas. A cantora argentina Mercedes Sosa, por exemplo, regravou Volver a los 17, música da chilena Violeta Parra, unindo Brasil, Argentina e Chile na resistência às ditaduras da época.
Do Chile, Milton trouxe o grupo Água, com Nano Stuven, Nelson Araya, Oscar Perez e Polo Cabrera, para tocar em faixas como Caldera, Minas Geraes e Promessas do sol. Gravado nos estúdios da EMI-Odeon no Rio de Janeiro, sob produção de Mariozinho Rocha e supervisão musical do próprio Milton, o disco reflete uma cuidadosa orquestração de influências.
Repertório e colaborações notáveis
Em Geraes, Milton assina apenas quatro músicas entre as doze faixas, atuando principalmente como intérprete de um repertório afinado com suas intenções artísticas. As composições incluem:
- A lua girou, tema folclórico adaptado por Milton
- Circo marimbondo, com letra de Ronaldo Bastos
- Menino, outra parceria com Bastos
- Promessas do sol, já mencionada
O álbum também apresenta Cálix Bento, adaptação de Tavinho Moura de uma Folia de Reis do norte de Minas Gerais, reforçando o viés sacro na obra de Milton. Com exceção do standard chileno e dos temas folclóricos, o repertório é majoritariamente inédito, destacando-se Fazenda, de Nelson Angelo, e Viver de amor, parceria de Toninho Horta com Ronaldo Bastos.
Momento ápice e legado duradouro
O ponto alto do disco é O que será (À flor da pele), com vocais sublimes de Milton e participação de Chico Buarque. Essa faixa exemplifica o auge vocal do cantor, enquanto Circo marimbondo conta com a presença especial de Clementina de Jesus, reavivando elos com a África e mostrando como matrizes africanas moldaram a latinidade do álbum.
A capa de Geraes exibe um desenho do próprio Milton, assinado por Cafi, Noguchi e Ronaldo Bastos, simbolizando a integração artística. Em 1976, driblando a repressão da ditadura, Milton já propagava a união latino-americana que, 50 anos depois, é ecoada por Bad Bunny ao desafiar líderes da Extrema Direita. Completando cinco décadas em 2026, Geraes permanece como retrato perene do sentimento gregário de latinidade que move Milton Nascimento há mais de 60 anos na música mundial.



