Álbum controverso de Elis Regina ganha nova vida com edição remixada e remasterizada
Quarenta e quatro anos após sua morte, Elis Regina Carvalho Costa continua a atravessar as décadas como uma das maiores vozes da música brasileira. A cantora gaúcha, nascida em 17 de março de 1945 e falecida em 19 de janeiro de 1982, mantém seu legado vivo através de suas gravações, incluindo o polêmico álbum "Elis", lançado originalmente em 1973.
Disco controverso recebe tratamento técnico moderno
O álbum "Elis" sempre ocupou um lugar peculiar na discografia da artista. Gravado com arranjos do pianista Cesar Camargo Mariano e produção orquestrada por Roberto Menescal com o então iniciante Marco Mazzola, o trabalho foi alvo de críticas por apresentar uma cantora mais técnica e fria, em contraste com sua voz geralmente expansiva. Além disso, o repertório incluiu o samba "Folhas secas", originalmente destinado a Beth Carvalho, em uma ação assumida por Menescal em livro do jornalista Leonardo Bruno.
Agora, esse disco denso e introspectivo ganha uma segunda chance com uma edição completamente remixada e remasterizada, lançada pela gravadora Universal Music. O projeto foi idealizado para celebrar os 80 anos que Elis teria completado no ano passado, mas o trabalho minucioso de tratamento das dez faixas, originalmente gravadas em oito canais, levou quase dois anos para ser concluído.
Filho de Elis lidera processo de revitalização sonora
A nova edição foi orquestrada por João Marcelo Bôscoli, filho primogênito de Elis Regina, em parceria com o engenheiro de som Ricardo Camera. A dupla teve como objetivo reapresentar o álbum como se tivesse sido gravado na década de 2020, corrigindo problemas técnicos que perseguiram o disco original por décadas.
"Sempre achei o áudio desse álbum muito estranho. E muitos fãs de Elis me procuravam para dizer o mesmo", revela João Marcelo Bôscoli. Durante o processo, descobriram que o som da bateria de Paulinho Braga, captado com apenas um microfone, vazava para o piano de Cesar Camargo Mariano, criando ruídos incômodos que comprometiam a qualidade da gravação.
"Tivemos de separar os sons das peças da bateria e retirar os vazamentos", explica Ricardo Camera sobre o meticuloso trabalho de restauração. A edição atualizada terá uma versão em LP prevista para o final de 2026, oferecendo aos fãs uma experiência auditiva completamente renovada.
Repertório dominado por grandes nomes da MPB
O álbum "Elis" de 1973 apresenta um repertório dominado por dois pilares da música popular brasileira:
- Gilberto Gil contribui com quatro composições: "Oriente" (1972), "Ladeira da preguiça" (1973), "Meio de campo" (1973) e "Doente, morena" (em parceria com Duda Machado, 1973)
- João Bosco e Aldir Blanc também marcam presença com quatro músicas: "Agnus sei" (1972), "Cabaré" (1973), "Comadre" (1973) e "O caçador de esmeralda" (1973, também assinada por Cláudio Tolomei)
Completando as dez faixas, está o samba "É com esse que eu vou" (Pedro Caetano, 1947), regravado por Elis em um tom introvertido que surpreendeu muitos admiradores acostumados com sua interpretação usualmente mais expansiva.
Legado que resiste ao tempo
Apesar de não possuir um repertório considerado tão avassalador quanto os álbuns "Elis" de 1972 e 1974, o trabalho de 1973 mantém o alto padrão de qualidade vocal que caracterizou a carreira da cantora. A nova edição remixada e remasterizada oferece uma oportunidade única para reavaliar este disco histórico, apresentando-o com uma clareza sonora que revela nuances antes obscurecidas por limitações técnicas da época.
O lançamento foi anunciado oficialmente em 17 de março de 2026, data em que Elis Regina completaria 81 anos, reforçando como sua música continua a ressoar através das gerações, agora com uma qualidade técnica à altura de seu talento imortal.
