O renomado compositor e poeta carioca Hermínio Bello de Carvalho, aos 90 anos de idade, está prestes a fazer história na música brasileira com o lançamento de sua primeira canção que apresenta uma letra explicitamente gay. Intitulada "Cabernet Sauvignon", a obra integra o álbum comemorativo "Hermínio Bello de Carvalho 90", que será disponibilizado ao público amanhã, dia 27 de fevereiro.
Uma colaboração especial e um pedido atendido
A música "Cabernet Sauvignon" nasceu de um pedido direto do cantor Ayrton Montarroyos, que solicitou ao poeta uma composição especialmente para ele. Em menos de uma semana, Hermínio Bello de Carvalho entregou os versos, demonstrando sua produtividade e sensibilidade artística inabaláveis. Montarroyos, descrito como um jovem cantor com alma antiga e profundamente sintonizado com o universo da MPB, celebra a parceria e a rapidez com que a letra chegou às suas mãos.
Detalhes da gravação e do álbum
A gravação de "Cabernet Sauvignon" foi realizada com uma simplicidade que realça sua beleza, contando apenas com o toque virtuoso do violão de João Camarero. A canção ocupa a quinta faixa do álbum, que contém um total de nove faixas, incluindo oito músicas e um poema, oferecendo uma jornada musical que homenageia a trajetória de nove décadas do artista.
Um marco na carreira de Hermínio Bello de Carvalho
Apesar de seu cancioneiro já conter diversas músicas cujas letras podem ser interpretadas como abordagens de amores entre homens, "Cabernet Sauvignon" representa um avanço significativo ao explicitar, pela primeira vez, um romance entre dois rapazes. Versos como "dois rapazes de mãos dadas no final" deixam clara a temática, marcando um momento histórico na obra do compositor.
Contexto histórico e comparações
Ao longo do século XX, muitos compositores brasileiros escreveram sobre amores entre homens, mas raramente ousaram nomeá-los diretamente em seus versos, devido às pressões sociais da época. Exceções notáveis incluem Noel Rosa, que em 1932 lançou o samba "Mulato bamba", inspirado na figura de Madame Satã, um homossexual lendário do bairro da Lapa, no Rio de Janeiro. Além disso, canções como "Nature boy", de Eden Ahbez (1948), embora não explicitamente gay, foram adotadas pela comunidade LGBTQIA+ por sua aura lírica, com versões no Brasil interpretadas por artistas como Caetano Veloso e Ney Matogrosso.
Na própria obra de Hermínio Bello de Carvalho, músicas como "Cobras e lagartos", uma parceria com Sueli Costa apresentada por Maria Bethânia em 1975, sugerem temas similares, mas sem a clareza encontrada em "Cabernet Sauvignon". A nova canção, portanto, vai além, oferecendo uma representação direta e poética do amor gay.
A letra de "Cabernet Sauvignon"
Com versos de alto teor poético, a letra de "Cabernet Sauvignon" explora metáforas ricas e imagens sensoriais, comparando o amor a um vinho encorpado e os amantes a um sommelier fiel. A música celebra a intimidade e a proteção entre dois homens, desafiando medos e perigos, enquanto afirma que "o amor é uma dor cujo nome é prazer". A referência final ao pintor Marc Chagall adiciona uma camada de surrealismo e beleza, encapsulando a essência artística da composição.
Significado cultural e social
O lançamento de "Cabernet Sauvignon" em 2026 pode parecer um fato banal em um contexto de maior aceitação social, mas sua importância reside no legado de Hermínio Bello de Carvalho e na quebra de barreiras em sua carreira. A música serve como um testemunho da evolução das representações LGBTQIA+ na cultura brasileira, destacando como artistas históricos continuam a contribuir para a diversidade e a inclusão na MPB.
O álbum "Hermínio Bello de Carvalho 90", com capa ilustrada por Mello Menezes, não apenas comemora a vida e a obra do poeta, mas também solidifica seu lugar como um pioneiro que, mesmo aos 90 anos, não teme explorar novas fronteiras temáticas. Esta iniciativa reforça o papel da arte em promover diálogos sociais e celebrar a pluralidade das experiências humanas.



