Fitti brilha ao cantar Ney Matogrosso com teatralidade e autoralidade no Queremos! Festival
Fitti canta Ney com personalidade em show teatral no Rio

Fitti brilha ao cantar Ney Matogrosso com teatralidade e autoralidade no Queremos! Festival

O show "Fitti canta Ney" encerrou o segundo dia da sétima edição do Queremos! Festival no Rio de Janeiro, seduzindo o público presente no Teatro Carlos Gomes na noite de domingo, 5 de abril de 2026. Sob a direção musical do baterista Pupillo, o artista pernambucano Fitti apresentou uma performance irretocável que honrou a estranheza autoral de Ney Matogrosso, que completará 85 anos em agosto, com espantosa vitalidade.

Uma interpretação que vai além do cover

Cantor, compositor e ator do Recife, Fitti soube interpretar o repertório de Ney Matogrosso longe do terreno do cover, imprimindo às 16 músicas do roteiro uma singularidade que reafirmou sua própria personalidade ao mesmo tempo em que expressou a liberdade que sempre pautou a vida e obra de Ney. Originado do álbum homônimo idealizado por Marcus Preto, diretor artístico do disco e do show, o espetáculo chegou à cena impregnado de teatralidade afinada com a potente sonoridade orquestrada pela banda.

A formação incluiu o guitarrista Yuri Queiroga, o tecladista Vinicius Furquim e o baixista Vic Vilandez, criando uma base musical robusta para a atuação de Fitti. Sons de chuva e trovoadas prepararam o clima para a entrada do artista em cena ao som de "Homem de Neanderthal", música que deu o norte do primeiro álbum e show solo de Ney Matogrosso.

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Repertório diversificado e performance envolvente

O show foi impulsionado com energia roqueira em números iniciais como "Tem gente com fome" e "Flores astrais". Interpretando o repertório tanto com a voz quanto com o corpo, Fitti dominou a cena gradualmente, se impondo como o "cara meio estranho" citado no verso do bolero pop "Bandido corazón". Essa música de sotaque latino simbolizou o deslocamento do roteiro em direção a outros climas, necessário para completar o arrebatamento do público.

Fitti realçou o sentido político da work song "O patrão nosso de cada dia" em número minimalista, com acordes precisos da guitarra de Yuri Queiroga. A teatralidade do show adquiriu caráter ritualístico na performance de "Bandolero", enquanto a interação com a plateia foi marcante em momentos como "Sangue latino" e o sensual fox "Seu tipo", quando o artista desceu para entre os espectadores.

Momentos de introspecção e ressignificação

A introspecção do canto poético de "Viajante" – número feito por Fitti em cadeira alocada ao centro do palco – aumentou a voltagem lírica do espetáculo. Foi sagaz a ideia de trazer para o universo do brega pernambucano a música "Dívidas de amor", parceria de Leoni com Ney Matogrosso, em raro momento em que o cantor se apresentou como compositor.

Do álbum "Bugre" (1986), Fitti reviveu "Mente, mente" em clima de cabaré e cantou "Balada do louco" com delicadeza envolvente, em interação com os teclados e synths de Vinicius Furquim. Antes do bis, o artista ressignificou os versos de "Homem com H" ao cantar como um homem trans o tema forrozeiro originalmente lançado pelo trio paraibano Os 3 do Nordeste.

Uma conclusão que consagra o intérprete

No duo do bis intencionalmente anticlimático, Fitti celebrou o orgulho nordestino com o canto de "Noite severina", em arremate que sublinhou definitivamente sua personalidade como intérprete. O público que assistiu à estreia carioca do show já estava certo de que estava diante de um artista com tamanha carga autoral que se mostrou capaz de encarar um repertório definitivamente associado a Ney Matogrosso sem jamais cair no terreno do cover.

Fitti cantou Ney Matogrosso como o novo, o antigo, aquele cujo tempo é hoje – uma demonstração de que a boa música transcende épocas e encontra novos significados através de intérpretes talentosos que sabem honrar a originalidade enquanto afirmam suas próprias identidades.

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