Crítica: 'Brutal Paraíso' de Luísa Sonza exagera na quantidade e cansa o ouvinte
O quinto álbum de estúdio de Luísa Sonza, intitulado 'Brutal Paraíso', chega às plataformas com uma proposta clara: nada de contenção. Com impressionantes 23 faixas e mais de uma hora de duração, o trabalho se apresenta como um projeto ambicioso que, no entanto, acaba se perdendo em seu próprio excesso.
Um disco que é quase três em um
Ao longo do extenso repertório, Sonza navega por múltiplos territórios musicais, criando a sensação de que 'Brutal Paraíso' poderia ser dividido em três álbuns distintos. Uma parte significativa herda elementos da bossa nova, gênero que a cantora explorou recentemente em 'Bossa Sempre Nova', mas mergulha em um pop oitentista carregado de sintetizadores e batidas dançantes que remetem a The Weeknd.
Nesse ambiente noturno, a artista faz referências a clássicos da música brasileira, como em 'Loira Gelada', que resgata elementos do RPM, e 'E Agora?', que interpola 'Você Não Me Ensinou a Te Esquecer', eternizada por Caetano Veloso.
Funk, trap e reggaeton na mistura
Outra fração do álbum migra para territórios mais contemporâneos, explorando funk, trap e reggaeton com participações de MC Morena, MC Meno K, MC Paiva, a porto-riquenha Young Miko e o colombiano Sebastian Yatra. São nessas faixas que surgem os potenciais hits, como 'Tropical Paradise', onde Luísa se mostra explícita e sem timidez em letras sensuais.
Uma terceira camada do disco entra em um território de pop rock datado, com composições dramáticas que transitam entre o emo e o louvor, completando a impressão de uma colcha de retalhos sonora.
Excesso de ideias e recursos
A mistura não se limita aos gêneros musicais. Nas letras, Sonza vai do 'proibidão' e sensual - como em 'me chama de cachorra' na faixa 'No Es Lo Mío' - ao rebuscado poético, com versos como 'Impiedoso sofrimento, silenciosa dor'. A artista ainda alterna entre português, inglês e espanhol, às vezes dentro de uma mesma música.
O uso frequente do 'belting', técnica vocal aguda e cortante, cansa o ouvido quando aparece repetidamente ao longo das 23 faixas. A sensação que fica é de que Luísa quer provar que sabe fazer de tudo: canta em três línguas, faz bossinhas românticas, tem funk para festas, conhece clássicos brasileiros e ainda inclui novas 'Penhasco' no repertório.
Falta de edição prejudica o conjunto
Para um disco com tantas faixas funcionar, a edição é fundamental. Em 'Brutal Paraíso', que não abre mão nem da quantidade de músicas nem dos recursos sonoros, o ouvinte sai fatigado. As canções que realmente brilham acabam soterradas por outras que parecem estar ali apenas para fazer volume.
Um exemplo emblemático é a faixa-título, última do disco. A música é uma carta emocionante à sobrinha de Luísa, onde ela fala sobre ser mulher, amar e se perdoar, com a letra 'Essa é a história dos meus 20 e poucos anos'. É a faixa mais honesta do álbum e merecia espaço para brilhar, mas depois de um disco inchado, acaba sobrando - situação agravada por seus 8 minutos de duração.
Questionamentos sobre a produção
É curioso pensar nesse excesso vindo de Luísa Sonza, artista que se consolidou como uma das principais vozes do pop brasileiro justamente por caprichar nas suas 'eras', com estética e conceito bem definidos. Para quem sempre pensou no álbum como um conjunto coeso, ficou de fora uma questão básica: um bom disco é aquele que você quer ouvir do início ao fim.
Na coletiva de lançamento, a cantora afirmou que não pensou na recepção do público, apenas na 'entrega' que queria fazer. A declaração explica muito sobre o resultado final: um trabalho que, apesar de ambicioso e com momentos de qualidade, peca pela falta de edição e pelo desejo de abraçar o mundo inteiro em um único projeto.
Com a promessa de que essas são apenas as 'primeiras 23 faixas' e que mais música está por vir, resta a pergunta: será que precisamos de tantas canções assim? Para os fãs mais dedicados, pode ser um banquete. Para o ouvinte comum, é um prato cheio que cansa antes do final.



