Tese de historiadora baiana fundamenta samba-enredo da Beija-Flor no carnaval 2026
A celebração do Bembé do Mercado, tradicional festa de Santo Amaro no recôncavo baiano reconhecida como o maior candomblé de rua do mundo, ganhou projeção nacional ao inspirar o samba-enredo da Beija-Flor de Nilópolis, escola vice-campeã do carnaval do Rio de Janeiro em 2026. A base histórica para essa homenagem veio da pesquisa da professora e historiadora baiana Ana Rita Araújo Machado, cuja dissertação de Mestrado defendida no Centro de Estudos Afro-Orientais da Universidade Federal da Bahia forneceu o embasamento acadêmico para a narrativa apresentada na Sapucaí.
Diálogo entre academia e carnaval
Em entrevista, Ana Rita revelou que os integrantes da Beija-Flor encontraram inicialmente outro trabalho seu desenvolvido em parceria com o Museu Nacional da Cultura Afro-brasileira, em Salvador. A partir dessa publicação, aprofundaram a investigação até chegar à dissertação de Mestrado. Durante um ano de pesquisas, membros da escola visitaram Santo Amaro, conversaram com a comunidade e realizaram levantamento de dados históricos, estabelecendo uma parceria que fortaleceu o diálogo entre o universo acadêmico e o carnavalesco.
"Houve uma troca extrema, constante. Eles já tinham lido minha dissertação e outros textos que publico. Tiveram uma preocupação muito grande de representar Santo Amaro de maneira respeitosa e de pensar o Bembé com cuidado", afirmou a professora, que acompanhou tanto o desfile quanto a apuração de votos.
O Bembé do Mercado: patrimônio cultural brasileiro
O Bembé do Mercado começou em 1889, um ano após a abolição da escravatura, sendo realizado todo dia 13 de maio com base na religiosidade popular de matriz africana. A festa é mantida por praticantes do candomblé como culto às divindades das águas, representadas por Iemanjá e Oxum, sendo momento de agradecer proteção individual e coletiva.
- Em 2019, a festa foi reconhecida como Patrimônio Cultural do Brasil pelo Iphan
- Desde 2012, é Patrimônio Imaterial da Bahia por decisão do governo estadual
- Considerado o maior candomblé de rua do mundo
Para a pesquisadora, o Bembé simboliza o processo de organização das populações negras no pós-abolição e sua projeção na Sapucaí consolidou e ampliou o reconhecimento da manifestação. "Quando a Beija-Flor escolhe um tema como o Bembé, as pessoas passam a ter dimensão do que existe ali há muito tempo", destacou Ana Rita.
Impacto simbólico e representatividade
Cerca de 40 representantes da celebração viajaram para o Rio de Janeiro e desfilaram no último carro alegórico da escola, em uma participação com forte impacto simbólico. "Eles representam valores civilizatórios das populações negras e das religiões de matriz africana. Estar ali é também dar visibilidade a essas pessoas em um evento de dimensão mundial", ressaltou a historiadora.
Nascida em Santo Amaro, Ana Rita construiu parte de sua trajetória acadêmica em Feira de Santana e atua na Universidade do Estado da Bahia, em Santo Antônio de Jesus, onde é professora do colegiado de História e colaboradora do mestrado. Em sua cidade natal, coordena o "Centro de Referência Bembé do Mercado: memórias e patrimônios de povos do terreiro e religiões africanas e afro-indígenas".
Conquista carnavalesca e reconhecimento cultural
Na quarta-feira de apuração, a Beija-Flor conquistou o segundo lugar no carnaval carioca de 2026, atrás apenas da Unidos do Viradouro, que somou 270 pontos na competição. As escolas retornam ao sambódromo para o Desfile das Campeãs, consolidando o sucesso da homenagem ao Bembé do Mercado.
A historiadora enfatizou que toda a concepção artística, incluindo alegorias, fantasias e estética, foi mérito do carnavalesco João Vitor de Araújo e sua equipe, enquanto sua contribuição esteve ligada ao embasamento histórico e esclarecimento de dúvidas sobre aspectos culturais e religiosos. "A linguagem científica dialoga com a arte, mas são linguagens diferentes. A pesquisa deu base para que ele criasse o universo que levou à Sapucaí", concluiu Ana Rita, celebrando essa importante ponte entre pesquisa acadêmica e expressão cultural popular.



