Estudo da USP revela que público do bloco de Daniela Mercury foi 100 vezes menor que o divulgado
Público de bloco de Daniela Mercury foi 100 vezes menor, diz USP

Estudo técnico da USP desmente números inflados de público no carnaval de São Paulo

Um levantamento realizado por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) revelou uma discrepância alarmante nos números de público divulgados durante o carnaval de 2026 na capital paulista. O bloco Pipoca da Rainha, comandado pela cantora Daniela Mercury, que desfilou pela Rua da Consolação no encerramento das festividades, teve uma estimativa real de aproximadamente 20 mil pessoas, segundo o estudo. Este valor é cem vezes menor do que os 2 milhões de foliões anunciados pela organização do evento.

Metodologia científica confronta estimativas oficiais

A pesquisa foi conduzida pela professora Mariana Aldrigui, especialista em políticas de turismo urbano da USP, em parceria com o Monitor do Debate Político do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap). A metodologia empregada é a mesma utilizada há anos para estimar públicos em grandes manifestações políticas no Brasil, baseando-se em critérios técnicos rigorosos.

Segundo os pesquisadores, a contagem precisa de público é fundamental para orientar o planejamento e a segurança da cidade. Números inflados podem distorcer decisões críticas sobre:

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  • Transporte público e mobilidade urbana
  • Policiamento e segurança durante os eventos
  • Limpeza urbana e disposição de resíduos
  • Alocação de banheiros químicos e infraestrutura sanitária
  • Transparência no uso de recursos públicos

Detalhes da análise técnica

O desfile do Pipoca da Rainha, que celebrou os 10 anos do bloco de Daniela Mercury em São Paulo, ocorreu no domingo, 22 de fevereiro, durante o pós-carnaval. O show começou por volta das 14h e reuniu foliões ao longo de toda a tarde na Rua da Consolação, no Centro da cidade.

De acordo com o relatório técnico, os pesquisadores estimaram a presença de 20 mil pessoas, com uma margem de erro de aproximadamente 12%, o que representa uma variação de cerca de 2,4 mil pessoas para mais ou para menos. "Mesmo considerando a margem de erro e possíveis oscilações ao longo do desfile, o público ficou muito distante da casa dos milhões", afirmou a professora Mariana Aldrigui.

O estudo também analisou outro megabloco do carnaval paulistano, o Sertanejinho do Teló, na região do Ibirapuera, e chegou a um número semelhante: 21 mil pessoas, com margem de erro de cerca de 2,5 mil. A organização deste bloco, no entanto, havia estimado a presença de 1 milhão de foliões.

Como foi realizada a contagem precisa

A metodologia utilizada pelos pesquisadores da USP envolveu várias etapas técnicas sofisticadas:

  1. Fotografias aéreas captadas por drones posicionados em ângulo perpendicular ao solo (90 graus), reduzindo distorções de perspectiva
  2. As imagens foram feitas em três momentos distintos do desfile: às 15h45, 16h20 e 17h00
  3. Utilização do software Point to Point Network (P2PNet), um sistema de inteligência artificial desenvolvido por pesquisadores da Universidade de Zhejiang, na China, em parceria com a empresa Tencent
  4. O programa foi treinado com bancos de dados internacionais e também com imagens de multidões brasileiras anotadas por pesquisadores da USP
  5. As imagens foram organizadas em mosaicos para evitar sobreposição e permitir a visualização completa do espaço ocupado pelo bloco

Antes da captura das imagens, os pesquisadores delimitaram com precisão a área do evento com base em um estudo técnico da Fundação para o Desenvolvimento Tecnológico da Engenharia (FDTE), contratado pela própria Prefeitura de São Paulo, que mapeia os trechos oficialmente destinados aos blocos de carnaval.

Falta de transparência nas contagens oficiais

A pesquisadora Mariana Aldrigui criticou a falta de transparência nas contagens divulgadas por organizadores, pela Polícia Militar ou por órgãos da prefeitura. Segundo ela, não existe um documento público que explique, de forma técnica, como se chega a números como 1 ou 2 milhões de pessoas em um único bloco.

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"Ter um número mais próximo da realidade não diminui o carnaval. Pelo contrário, ajuda o poder público a planejar melhor segurança, transporte e serviços urbanos com base em dados concretos", argumentou a especialista.

Ela também destacou problemas metodológicos nas contagens oficiais, como o uso do termo "foliões", que pode inflar os dados ao contabilizar a mesma pessoa várias vezes ao longo do dia. "Uma pessoa pode ir a três blocos diferentes e ser contada três vezes. Isso só não é um problema se a metodologia for explicitada, o que não acontece", explicou.

Impactos práticos das estimativas infladas

Para ilustrar a diferença de escala, a pesquisadora comparou os números divulgados no carnaval com grandes shows recentes. O show de Bad Bunny realizado em São Paulo no último fim de semana estava "ultralotado", mas reuniu cerca de 90 mil pessoas, número muito inferior aos milhões citados em alguns blocos.

"A desocupação de um estádio com 90 mil pessoas leva quase duas horas. Isso mostra como o nosso olhar não está treinado para lidar com milhões: volumes de dezenas de milhares já são enormes", afirmou Aldrigui, ao argumentar que estimativas na casa dos milhões não se sustentam do ponto de vista físico e operacional.

Procuradas pela reportagem, as equipes do Pipoca da Rainha e do Sertanejinho do Teló não explicaram, até a última atualização, como suas contagens foram realizadas. A dinâmica do bloco de Daniela Mercury, segundo os pesquisadores, contribuiu para uma estimativa mais estável, pois não houve uma substituição total de público ao longo do tempo - as pessoas chegaram e permaneceram, com o formato do circuito dificultando entradas e saídas rápidas.

O estudo conclui que nenhum dos blocos analisados ultrapassou 100 mil pessoas no total, mesmo considerando todo o período do desfile, destacando a necessidade de maior transparência e rigor metodológico nas estimativas de público para eventos de grande porte na cidade.