Origem colonial do mela-mela: tradição cearense que suja Carnaval desde Brasil Colônia
Origem colonial do mela-mela no Carnaval cearense

Mela-mela: a tradição cearense que transforma sujeira em diversão carnavalesca

Quem já vivenciou o Carnaval no Ceará, especialmente nas periferias de Fortaleza ou em municípios litorâneos como Aracati e Paracuru, certamente conhece as nuvens brancas de goma que tingem roupas coloridas e adereços festivos. As celebrações de mela-mela são uma marca registrada do estado, mas poucos conhecem suas origens históricas profundas, que remontam ao Brasil Colônia.

Das brincadeiras portuguesas às ruas cearenses

Segundo estudiosos da área, incluindo historiadores, sociólogos e antropólogos, o "ancestral" direto do mela-mela é o Entrudo, considerado também o precursor do Carnaval brasileiro. Esta tradição surgiu em Portugal e consistia em brincadeiras de rua onde participantes sujavam uns aos outros de maneira ainda mais intensa que nas festas contemporâneas.

Danielle Maia Cruz, socióloga e psicóloga, explica que "a possibilidade de transgressão vai se firmando não somente pelo uso de fantasias de toda ordem, mas pelo contato com o outro a partir de limites que naquele momento eram permitidos por acordos que a própria festa permitia, tal como o mela-mela". Ela acrescenta que "muito mais que uma diversão, o mela-mela coloca em cena a forma de contato com o outro (o estranho) por meio da sujeira".

Transformações ao longo dos séculos

Os entrudos portugueses ganharam força durante o período colonial, mas sofreram transformações significativas com a chegada da família real em 1808. Conforme a professora da Universidade de Fortaleza (Unifor), surgiu então a influência do Carnaval Veneziano e de festividades europeias consideradas mais civilizadas.

Vanda Lúcia de Souza Borges, em sua tese de doutorado "Carnaval de Fortaleza: tradições e mutações", detalha que "a partir de 1870, o entrudo tornou-se menos grosseiro pela substituição daqueles pós diversos por laranjinhas de borracha ou cera com água de cheiro". No entanto, práticas similares persistiram no Ceará através do mela-mela, especialmente entre segmentos populares.

A consolidação no litoral cearense

Apesar de não ser exclusivo do litoral, foi nas praias do Ceará que o mela-mela ganhou força contemporânea. Danielle Maia Cruz observa que "é preciso lembrar que em diversas localidades do Brasil, as festas de Carnaval ganham força quando associadas ao incentivo do turismo pelo poder público".

Em meados dos anos 1990, o Carnaval das praias cearenses se firmou seguindo modelos similares aos trios elétricos de Salvador, transformando a prática de se sujar durante a folia em tradição consolidada. Atualmente, foliões utilizam:

  • Goma de tapioca
  • Amido de milho
  • Mel ou melaço
  • Sprays de espuma

Regulamentação e continuidade da tradição

O clima de "desordem" controlada permanece limitado ao período festivo. No Ceará, não existe lei estadual que proíba a prática do mela-mela, embora municípios possam adotar medidas locais, como a apreensão de materiais por órgãos fiscalizadores.

Para o Carnaval de 2026, a Prefeitura de Paracuru - onde tradicionalmente os foliões realizam mela-mela - orientou para o uso consciente da goma, sem determinar apreensão sistemática dos materiais. Esta abordagem reflete o equilíbrio entre preservação cultural e organização urbana que caracteriza a manutenção desta tradição centenária.

A festa do mela-mela representa, portanto, muito mais que simples brincadeira: é manifestação cultural que conecta o presente cearense com práticas coloniais, mantendo viva uma forma única de celebração carnavalesca através dos séculos.