Morre Nelsinho, filho de Nelson Rodrigues, que lutou contra a ditadura e criou o bloco Barbas
O diretor teatral e roteirista Nelson Rodrigues Filho, conhecido como Nelsinho, faleceu aos 79 anos na madrugada desta quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026, na cidade do Rio de Janeiro. A causa da morte ainda não foi divulgada oficialmente, mas ele enfrentava sequelas de dois acidentes vasculares cerebrais (AVCs), ocorridos em 2015 e 2024. Nelsinho era filho do renomado escritor e dramaturgo Nelson Rodrigues, que morreu em 1980, e deixou um legado marcante na cultura carioca.
Trajetória de resistência e criação carnavalesca
Nelsinho é amplamente reconhecido por ter fundado um dos blocos de carnaval mais tradicionais do Rio de Janeiro, o Barbas, há mais de quatro décadas. O nome do bloco faz referência à sua característica barba, tornando-se um símbolo de alegria e tradição nas festividades. Em contraste com a postura do pai, que apoiou a ditadura militar (1964-1985) e chegou a negar a existência de torturas durante o regime, Nelsinho adotou uma posição de resistência ativa.
Ele foi militante do Movimento Revolucionário Oito de Outubro (MR-8), um grupo marxista que defendia a luta armada contra o autoritarismo. Por sua atuação política, Nelsinho foi preso e permaneceu encarcerado por sete anos durante a década de 1970, período em que sofreu o que ele mesmo descreveu como "barra pesada de tortura". Em diversas entrevistas, ele relatou que sobreviveu graças à influência e proximidade do pai com os militares, um paradoxo que marcou profundamente sua vida.
Mudança de perspectiva familiar e legado cultural
Após ser libertado, Nelson Rodrigues questionou o filho sobre possíveis violências sofridas durante a prisão. Ao ouvir a resposta afirmativa de Nelsinho, que detalhou ter sido "barbaramente" torturado, o dramaturgo mudou sua postura em relação à ditadura. Ele passou a defender publicamente uma ampla anistia e a libertação de presos políticos, embora, conforme Nelsinho explicou, não tenha rompido completamente com o regime para evitar represálias e proteger o filho.
Nelsinho destacou em suas declarações: "A cara do velho. Aí caiu a ficha. A partir do momento em que soube, não deixou de escrever a favor da ditadura, não podia 'chutar o balde', até para me proteger, mas mudou em ênfase". Essa transformação familiar reflete os conflitos e reconciliações que permeiam a história brasileira recente, unindo arte, política e memória.
Além de sua militância, Nelsinho deixou uma contribuição duradoura para a cultura popular através do bloco Barbas, que continua a animar o carnaval carioca. Sua morte encerra uma vida de lutas, criatividade e resiliência, marcada por contrastes entre herança familiar e convicções pessoais.



