Beto, o ex-monstro de parque que se tornou a bruxa Baba Yaga no Carnaval de SP
Ex-monstro de parque vira bruxa Baba Yaga no Carnaval de SP

Do Hopi Hari ao Sambódromo: a trajetória do ator que encarna a bruxa Baba Yaga

Antes de adentrar a avenida na primeira noite de desfiles do Grupo Especial do Carnaval de São Paulo, Carlos Roberto, mais conhecido como Beto, reuniu os bailarinos da Comissão de Frente. Com um gesto carregado de tradição teatral, desejou boa sorte a todos, encerrando com um sonoro “merda”, expressão consagrada nos palcos como augúrio de sucesso. Minutos depois, já completamente imerso na pele de sua personagem, ele compartilhou uma jornada singular: dos parques de diversão ao protagonismo no maior espetáculo da folia paulistana.

A realização de um sonho antigo no carro alegórico

Como destaque em um dos carros alegóricos da Colorado do Brás, Beto dá vida à enigmática bruxa Baba Yaga. Ele revela que a expectativa é transformar a avenida em um grandioso sabá, um ritual de celebração e empoderamento. “A expectativa é chamar todas as bruxas e reivindicar nossa liberdade”, afirma com convicção. Para o ator, a figura da bruxa transcende o folclore, simbolizando a perseguição histórica sofrida pelas mulheres ao longo dos séculos.

“As mulheres foram muito massacradas. Se tivesse uma verruga, era chamada de bruxa. Ou se fosse uma vidente, também era chamada de bruxa. Mas hoje, faremos o grande sabá para mostrar que todas as mulheres têm o seu direito”, reflete Beto, destacando o caráter político e social de sua atuação.

Das atrações de parque ao destaque no Carnaval

Maquiador e dançarino, Beto narra que trabalhou por longos anos interpretando monstros em parques de diversão, como o famoso Hopi Hari. “Desde então, eu comecei a ser reconhecido”, recorda. Foi nesse ambiente, há treze anos, que ele chamou a atenção do carnavalesco da Colorado do Brás ao encarnar uma bruxa em uma das atrações. “Ele se encantou e sempre falou: ‘eu vou colocar você qualquer dia, qualquer carnaval, em evidência com uma bruxa’”, conta o artista.

O convite tão aguardado se materializou no ano passado, durante um encontro casual na casa de um amigo. “Ele falou: 'eu tenho uma coisa pra te mostrar'. E apresentou esse carro. Foi uma emoção pura”, descreve Beto, ainda emocionado. Para ele, ocupar a posição de destaque em um carro alegórico representa a concretização de um antigo anseio. “Vim de destaque num lugar muito almejado por muitos. E poder trazer essa personagem, mostrar minha arte junto com o balé, eu tô muito feliz mesmo”, celebra.

O simbolismo da bruxa e os corvos mensageiros

No desfile, a Baba Yaga surge majestosamente cercada por corvos, elementos carregados de significado. “A bruxa tem os corvos dela. Os corvos são os mensageiros das bruxas. Eles que levam a carta, eles que vão ver as pessoas que as bruxas pedem pra ir atrás”, explica Beto, detalhando a mitologia por trás da apresentação.

Na parte traseira do carro, uma igreja compõe o cenário, remetendo diretamente ao período sombrio da história em que mulheres eram cruelmente perseguidas sob acusações de feitiçaria. “Ali é a igreja onde os cristãos apedrejavam muitas mulheres. A gente, na verdade, tirava os demônios que falavam que tinha. E a minha bruxa representa isso: a demonização da mulher”, contextualiza o ator, reforçando a mensagem de resistência e ressignificação que sua personagem carrega.

A transformação de Beto, de monstro em parques de diversão para símbolo de força e liberdade no Carnaval, ilustra não apenas uma trajetória artística impressionante, mas também o poder do samba como palco de narrativas profundas e relevantes. Sua atuação como Baba Yaga na Colorado do Brás certamente ficará marcada como um dos momentos mais significativos desta edição do Carnaval de São Paulo.