Aquarela histórica revela as raízes do carnaval brasileiro no século XIX
Longe dos desfiles, baterias, carros alegóricos, trios elétricos e fantasias elaboradas que caracterizam o carnaval contemporâneo, uma pintura do século XIX oferece uma visão completamente diferente das origens da folia no Brasil. A aquarela 'Um dia de entrudo (carnaval)', criada em 1823 pelo artista francês Jean-Baptiste Debret, retrata uma cena urbana do Rio colonial onde uma mulher negra com uma cesta na cabeça é alvo de polvilho jogado por um jovem, enquanto outros personagens observam a cena.
O entrudo: primeiras manifestações carnavalescas no Brasil
A obra de Debret, constantemente reproduzida em livros didáticos e históricos, é frequentemente descrita como o primeiro grande registro iconográfico do carnaval de rua brasileiro. A pintura documenta o entrudo, conjunto de brincadeiras trazido pelos portugueses com raízes em tradições medievais europeias, que dominava as celebrações antes da formação do carnaval como conhecemos hoje.
Diferente das festividades musicais e coreografadas que se desenvolveriam posteriormente, o entrudo consistia principalmente em jogos onde participantes tentavam molhar ou sujar uns aos outros utilizando pequenas bolinhas recheadas de líquidos (os limões de cheiro), seringas, baldes, farinhas, tintas e outros materiais.
Trajetória da obra e seu significado histórico
O desenho aquarelado foi produzido no Rio de Janeiro entre 1816 e 1831, período em que Debret integrou a Missão Artística Francesa. A obra foi posteriormente levada para a França, transformada em matriz de litografia e publicada no livro "Viagem Histórica e Pitoresca ao Brasil", que obteve notoriedade na Europa em um momento de crescente interesse pela vida nas Américas.
Atualmente, a aquarela original é mantida em conservação no Museu da Chácara do Céu, em Santa Teresa, bairro do Rio de Janeiro com forte tradição carnavalesca, sem estar em exposição pública para evitar sua degradação pela luz.
Contexto social do entrudo no Brasil colonial
Em um Brasil ainda profundamente marcado pela escravidão - abolida apenas em 1888 -, o entrudo inicialmente chegou como jogo doméstico entre famílias de colonizadores, mas gradualmente se espalhou para envolver também pessoas escravizadas. Na obra de Debret, é possível identificar além da vendedora atacada com polvilho, outra mulher com tabuleiro de limões de cheiro e um homem negro utilizando uma seringa para esguichar água.
O próprio Debret descreveu detalhadamente a cena: "A negra sacrifica tudo ao equilíbrio de seu cesto (...) enquanto o moleque, de seringa de lata na mão, joga um jato de água que a inunda". O artista ainda menciona "famílias tomadas da loucura do momento" e "um pacífico cidadão escondido atrás de seu guarda-chuva aberto" circulando entre restos de limões de cera.
Transição histórica e críticas ao entrudo
A partir da segunda metade do século XIX, a prática do entrudo passou a ser criticada por jornais e governantes que a associavam à violência e desordem, com tentativas frequentes - muitas vezes mal sucedidas - de proibi-la nas ruas. Somente a partir da década de 1910 é que o entrudo começou a perder força no carnaval brasileiro, dando espaço para as manifestações musicais e coreografadas que caracterizariam a folia nos séculos seguintes.
Em seus escritos, Debret comparou o carnaval brasileiro com o europeu, destacando que "não lembra, em geral, nem os bailes nem os cordões barulhentos de mascarados que, na Europa, comparecem a pé ou de carro nas ruas mais frequentadas". O artista ressaltou que "os únicos preparativos do carnaval brasileiro consistem na fabricação dos limões-de-cheiro", atividade que envolvia diversas camadas da sociedade colonial.
Legado artístico e histórico de Jean-Baptiste Debret
Antes de vir ao Brasil, Debret havia se estabelecido na França como pintor da corte napoleônica. Com a queda de Napoleão em 1815, ele e outros colegas precisaram se reinventar profissionalmente. No Rio, inicialmente retomou o ofício de pintar a realeza, retratando a corte de Dom João VI e criando cenografias para palácios.
Contudo, durante sua estadia de quinze anos no Brasil, Debret assumiu informalmente papéis de historiador e antropólogo, observando e registrando cenas do cotidiano brasileiro. Sua produção inclui não apenas a famosa aquarela do entrudo, mas também obras como "Castigo do Açoite" e "Mercado da rua do Valongo", que documentam aspectos cruciais da sociedade escravista brasileira.
O livro "Viagem Pitoresca" contém 200 imagens acompanhadas de textos descritivos que, segundo especialistas, formam uma crônica completa do Brasil do período. A curadora Anna Paola Pacheco Baptista, do Museu Nacional de Belas Artes, explica que "o texto e a imagem para o Debret são coisas inseparáveis", destacando a importância histórica de seu trabalho documental.
Primeiras manifestações musicais no carnaval
Apesar de retratar predominantemente o entrudo, Debret também documentou manifestações que prenunciavam desenvolvimentos futuros do carnaval brasileiro. Ele descreveu ter visto grupos de pessoas negras mascaradas e fantasiadas de "velhos europeus", imitando com habilidade os gestos da elite enquanto cumprimentavam pessoas nas sacadas durante desfiles.
Esses grupos eram acompanhados por músicos também negros, igualmente fantasiados, fornecendo acompanhamento sonoro para as performances. Debret destacou ainda o papel dos barbeiros - majoritariamente negros na época - que formavam bandas completas de músicos itinerantes tocando rabeca, clarineta e outros instrumentos em bailes, festas de confrarias e procissões, executando valsas e contradanças francesas adaptadas ao contexto local.
A aquarela de Debret permanece como testemunho visual fundamental das origens do carnaval brasileiro, documentando não apenas práticas culturais específicas, mas também as complexas dinâmicas sociais do Brasil colonial em processo de formação.
