Carnaval de São Paulo 2026: atrasos, tecnologia e homenagens marcam primeira noite
Carnaval SP 2026: atrasos e tecnologia na primeira noite

Carnaval de São Paulo 2026 inicia com atrasos e espetáculos tecnológicos

O primeiro dia de desfiles do grupo especial do Carnaval de São Paulo, realizado entre a noite de sexta-feira (13) e a madrugada e manhã de sábado (14), foi marcado por atrasos significativos, carros alegóricos enormes e tecnológicos, além de alegorias luxuosas que encantaram o público presente no Sambódromo do Anhembi, na zona norte da capital paulista. A segunda noite do grupo especial teve início neste sábado, às 22h30, com outras sete agremiações se apresentando. A escola que alcançar a maior nota somando os dois dias será declarada campeã, enquanto as duas com as piores avaliações serão rebaixadas para o grupo de acesso. A apuração oficial dos resultados está programada para ocorrer na terça-feira (17) durante a tarde.

Desfiles emocionantes e homenagens culturais

Dragões da Real e Rosas de Ouro realizaram apresentações que cativaram o público no Sambódromo do Anhembi. Acadêmicos do Tatuapé, Colorado do Brás e a multicampeã Vai-Vai, detentora de 15 títulos e maior vencedora do Carnaval paulistano, também executaram desfiles de alta qualidade. A organização do Carnaval neste ano introduziu mudanças operacionais significativas, com torres estrategicamente posicionadas ao longo dos 530 metros de pista para permitir que os jurados avaliassem as escolas de perto ou de longe com maior precisão.

O posicionamento dos últimos avaliadores pode representar uma ameaça à nota de evolução do desfile da Mocidade Unidos da Mooca, agremiação da zona leste paulistana que reverenciou a força da mulher negra. Estreante no grupo especial, a escola destacou a filósofa, escritora e ativista antirracista Sueli Carneiro como um de seus principais destaques. A agremiação apresentou o enredo "Gèlèdés - Agbara Obinrin", que enfatizou a força da mulher negra e fez referências à ancestralidade iorubá. O enredo é uma homenagem direta ao Geledés - Instituto da Mulher Negra, fundado por Sueli Carneiro. A escola emocionou o público com as paradinhas da bateria e com os punhos levantados de seus componentes, em gestos simbólicos de luta contra o racismo. Outro momento marcante foi a presença da deputada federal Érika Hilton (PSOL-SP), que desfilou com a faixa de "presidenta", repetindo uma performance similar realizada no desfile da Paraíso do Tuiuti, em 2025, no Rio de Janeiro.

A escritora Conceição Evaristo também foi homenageada em um dos carros alegóricos da escola. No entanto, a Mocidade Unidos da Mooca precisou acelerar o ritmo no final de sua apresentação, encerrando o desfile com 1h5min40s, apenas 20 segundos abaixo do limite de tempo máximo permitido. Observadores notaram que os convidados que fechavam o desfile apertaram o passo e quase chegaram a correr, o que pode comprometer as notas de evolução da agremiação.

Colorado do Brás e Dragões da Real encantam com criatividade

A segunda escola a entrar na pista, a Colorado do Brás, "soltou as bruxas" em um desfile vibrante e colorido. Entre os destaques estava a ala das baianas, cujas componentes utilizavam braços falsos que seguravam arranjos de folhas, enquanto os braços verdadeiros se transformavam em enormes asas de coruja. A atriz Fabi Bang, intérprete de Glinda na montagem brasileira de "Wicked", desfilou com o figurino completo da personagem. O terceiro carro, intitulado "Convenção das Bruxas", transportou personagens icônicos da infância e da ficção, incluindo a Cuca, do "Sítio do Pica-Pau Amarelo" de Monteiro Lobato, enquanto crianças se espalhavam em meio a guloseimas temáticas. Albertino José Guedes, um dos fundadores da Colorado do Brás e aposentado, afirmou que o desfile da agremiação "deu certinho", destacando sua preferência pelo Carnaval contemporâneo em comparação com o passado mais artesanal e amador.

A terceira escola na ordem dos desfiles, a Dragões da Real, apresentou o enredo "Guerreiras Icamiabas - Uma lendária história de força e resistência", marcando o primeiro desfile de temática indígena em sua história. Originária de uma torcida uniformizada do São Paulo, a escola levou ao Anhembi torcedores com faixas de cidades do interior do estado, como Presidente Prudente, localizada a mais de 550 km da capital. Os enormes carros alegóricos e seus efeitos especiais foram os grandes responsáveis por chamar a atenção. O abre-alas exibia um dragão de 12 metros de comprimento e 9 metros de altura, que mexia a cabeça, abria as asas e soltava fumaça. Logo atrás, uma indígena de 10 metros de altura empunhava um arco e flecha. Entre gigantescas cobras, uma onça se transformava em mulher ao abrir a boca. A cantora Lexa, madrinha de bateria, fez sua estreia no Carnaval paulistano e protagonizou um dos momentos de efeitos especiais da agremiação, "produzindo" luz verde e fumaça com as próprias mãos para representar o poder de sentinela da mata.

Acadêmicos do Tatuapé e Rosas de Ouro buscam títulos

A Acadêmicos do Tatuapé entrou no sambódromo com o objetivo claro de recuperar o título que perdeu no ano anterior, quando somou os mesmos 269,8 pontos que a campeã Rosas de Ouro, mas ficou em segundo lugar nos critérios de desempate. O enredo de 2026, "Plantar para Colher e Alimentar: Tem Muita Terra Sem Gente e Muita Gente Sem Terra", criticou a concentração fundiária no Brasil e celebrou a esperança por dias melhores. O jornalista Chico Pinheiro e o ex-jogador Raí participaram do desfile em homenagem ao MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra). Os foliões, cantando alto durante todo o percurso, chamaram a atenção pela empolgação contagiante. O desfile terminou em uma celebração pela fartura das colheitas, com esculturas de violeiro e sanfoneiro animando a festa. Agricultores familiares doaram frutas para enfeitar um dos carros alegóricos, que serão distribuídas para famílias da comunidade do Tatuapé após a apresentação. A escola contou com uma equipe de apoio em todas as alas, incluindo integrantes que carregavam pequenos defumadores com ervas como alecrim, guiné, sal grosso e café, com o objetivo de "limpar toda a energia e garantir um caminho próspero" à agremiação, conforme explicou a terapeuta ocupacional Bianca Zanardi, de 34 anos.

A atual campeã, Rosas de Ouro, compensou com luxo e precisão as adversidades enfrentadas. A escola da região da Brasilândia, zona norte de São Paulo, foi punida com a perda de 0,5 ponto por descumprir o prazo de entrega das pastas técnicas aos jurados. Além disso, um vazamento de óleo da escola anterior atrasou em mais de uma hora o início do desfile da Rosas em relação à programação oficial. Apesar dos contratempos, a agremiação realizou um desfile impecável, com fantasias e alegorias luxuosas que não receberam críticas. Os grandes carros chamavam a atenção com sua iluminação elaborada, e a escola empolgou o público presente. A astróloga Márcia Sensitiva foi uma das atrações do enredo "Escrito nas Estrelas", que apresentou um cortejo mostrando o universo desde sua criação até seu uso como guia do pensamento e destino humano.

Vai-Vai e Barroca da Zona Sul fecham a noite

Com o sol nascendo, a Vai-Vai realizou uma apresentação literalmente cinematográfica, homenageando os trabalhadores de São Bernardo do Campo a partir da histórica Companhia de Cinema Vera Cruz, que se tornou o maior parque cinematográfico da América do Sul. Como nos anos anteriores, o samba-enredo da escola da Bela Vista, centro de São Paulo, colocou o Anhembi para cantar em um desfile seguro e sem sustos. Diogo Santos, de 32 anos, que elaborou a coreografia ao lado de Priscila Paciência, de 41 anos, afirmou que o samba foi executado "com garra e vontade". Foi a estreia da dupla na Vai-Vai, e Priscila declarou: "Se for pela energia que a galera transmitiu para a gente, a escola será campeã".

A última escola da noite, a Barroca da Zona Sul, desfilou em plena luz do dia com uma ode a Oxum, a orixá das águas doces e divindade da beleza, do amor, da riqueza e do ouro. A agremiação enfrentou um pequeno problema no segundo carro e realizou um desfile compacto. Em determinado ponto, o carro seguinte ficou disperso em relação à alegoria à frente. Como nas edições anteriores, a escola conseguiu envolver o público remanescente no sambódromo, que cantou junto. A Barroca da Zona Sul não estourou o tempo por pouco, finalizando sua apresentação com 1h5min1s, dentro do limite estabelecido.