Carnaval de Olinda: Orquestras de frevo enfrentam desafios com 'paredões' e desordem nas ladeiras
Neste domingo de carnaval, blocos e foliões desfilam pelas ladeiras de Olinda, mas a festa é marcada por uma polêmica crescente. A proliferação de paredões de som e blocos com bateria de samba tem gerado conflitos com as tradicionais agremiações de frevo, levantando questões sobre mobilidade e segurança no Sítio Histórico da cidade.
Conflito entre tradição e modernidade no carnaval
De acordo com maestros de orquestras de frevo, que atuam há décadas no carnaval olindense, a passagem de grupos com carros de som e cordões de isolamento está prejudicando a circulação das troças. Essas formações, tão emblemáticas da folia local, enfrentam atrasos e dificuldades devido ao volume e à desorganização dos desfiles com equipamentos eletrônicos.
Os artistas argumentam que essa situação pode descaracterizar a festa, ao dificultar a fluidez dos cortejos tradicionais. O impasse tem sido tema de debate recente, após declarações públicas de regentes experientes, que alertam para os riscos envolvidos.
Violação da lei municipal e falta de fiscalização
Os músicos apontam que agremiações e camarotes que utilizam som mecânico estão descumprindo a Lei Municipal 5455/2005. Esta legislação proíbe o uso de veículos automotores com aparelhagens em volumes acima de 60 decibéis pela manhã, 65 à tarde e 50 à noite em áreas residenciais.
Na visão dos artistas, há uma carência significativa de fiscalização e ordenamento por parte do poder público. O g1 tentou contato com a prefeitura de Olinda para obter um posicionamento, mas não recebeu resposta até o fechamento desta reportagem.
Relatos de maestros: atrasos, riscos e prejuízos
O maestro Oséas Leão, homenageado do carnaval de Olinda em 2023, relatou que já sofreu atrasos devido aos paredões das baterias. Eles passam uma hora ali na frente da prefeitura. A maioria das troças pequenas não vai nem para o lado de lá mais, declarou, expressando preocupação com o futuro do frevo na cidade.
Já o maestro Lúcio Henrique, do Grêmio Musical Henrique Dias, destacou os perigos de acidentes. Tem um bloco que coloca na Ladeira da Misericórdia um carro pesado, e a bateria à frente. Se porventura naquele veículo falta freio, vai ter gente atropelada, afirmou, criticando a ausência de medidas de segurança como bombeiros civis.
Além disso, as paradas prolongadas de blocos em pontos estratégicos, como em frente à prefeitura, têm prejudicado o cumprimento de horários pelas orquestras. Isso resulta em perda de público e frustração entre os foliões, que buscam apreciar o frevo em meio ao caos sonoro.
Desafios logísticos e sugestões para ordenamento
A dificuldade é agravada pela escassez de orquestras em relação ao grande número de blocos, tornando a rotina dos músicos uma verdadeira maratona. O maestro Carlos Rodrigues explicou: A gente pega uma hora e tem que largar a outra hora. Quando a gente se encontra com um bloco de samba, eles não têm o compromisso de horário de recolher, e a gente tem.
Outros obstáculos incluem carros estacionados irregularmente, que complicam a passagem das troças. O maestro Risonaldo Verçosa mencionou: É perigoso para a orquestra e para os foliões, já pensou naquele empurra, empurra, sai uma briga sem lugar para você correr?
Em contrapartida, o maestro Adriana Ferreira Pinto, conhecido como Babá, defendeu uma solução organizada. Minha opinião é que eles não atrapalham. Agora, acho que deveria ter os horários definidos e ser feito um corredor para eles, à beira-mar ou no Varadouro, sugeriu, indicando a necessidade de um planejamento municipal mais eficaz.
Impacto na cultura e segurança do carnaval
Esta polêmica reflete um conflito mais amplo entre tradição e inovação no carnaval de Olinda. Enquanto alguns defendem a diversidade musical, outros alertam para os riscos à segurança e à preservação do frevo como patrimônio cultural.
A falta de fiscalização e ordenamento não só ameaça a experiência dos foliões, mas também coloca em risco a integridade física de participantes, em meio às ladeiras estreitas e aglomerações características da festa.
À medida que o carnaval evolui, a busca por um equilíbrio entre diferentes estilos e a garantia de um ambiente seguro tornam-se questões urgentes para os organizadores e autoridades de Olinda.