Blocos LGBTQIA+ transformam Carnaval do Recife em palco de resistência e celebração
Blocos LGBTQIA+ fazem do Carnaval do Recife palco de resistência

Blocos LGBTQIA+ transformam Carnaval do Recife em palco de resistência e celebração

O Carnaval, tradicionalmente sinônimo de festa e alegria, também se consolida como uma poderosa expressão popular, cultural e política. Em Pernambuco, especialmente no Recife e Olinda, essa manifestação ganha contornos ainda mais significativos com a crescente presença de blocos que carregam a bandeira LGBTQIA+. Agremiações como Quem Cola Entra, Maracadonna, Tesourada, Se Eu Flopar Me Beija e Transcoco não apenas animam as ruas, mas reivindicam visibilidade e segurança para a comunidade.

A necessidade de espaços próprios e seguros

Aída Polimeri, coordenadora de comunicação do bloco Quem Cola Entra, revela que a troça nasceu de uma experiência traumática. "Uma das fundadoras sofreu um episódio de violência em Olinda. A gente se 'forçou' a sair juntas para se proteger. Éramos todas mulheres com corpos dissidentes que amam o carnaval e não queríamos aceitar ficar em casa por conta desse episódio", explica. Ela enfatiza a importância de criar mais agremiações declaradamente LGBTQIA+, especialmente após o fim do bloco 'Vai ou Racha', para garantir a presença e a expressão da comunidade na folia.

Essa busca por identificação é crucial. "É muito importante ter um lugar para a gente ir. Se for comparar, quantos blocos têm uma massa grande cis hétero? Os maiores e mais conhecidos são sempre pensados para pessoas cis héteros. A gente sempre achou que tinha corpo e força para juntar essa galera", pontua Aída, destacando a necessidade de ocupar espaços além dos tradicionalmente destinados ao público LGBTQIA+, como a Rua 13 de Maio em Olinda.

Evolução natural e celebração da diversidade

O Maracadonna, inicialmente concebido como uma homenagem à cantora Madonna, evoluiu naturalmente para se tornar um símbolo LGBTQIA+. Jo, idealizador do bloco, conta: "Nascemos LGBTQIA+, mas fomos de fato entender e nos posicionar dessa forma este ano, abraçando essa causa como uma missa campal LGBT, celebrando o direito de ser livre em qualquer instância e celebrando a diva pop que mais abraça a causa". Ele ressalta que essa transformação foi tanto um desejo dos organizadores quanto do público, reafirmando a importância da presença LGBTQIA+ nas ruas durante o carnaval.

De maneira similar, o bloco Se Eu Flopar Me Beija surgiu quase por acaso. Luca Delmas, fundador, explica que a ideia inicial era uma prévia de despedida, mas rapidamente atraiu mais de mil pessoas. "Nunca foi objetivamente pensado um público LGBT, mas foi pensado para gente que queria se divertir, gente como a gente. Então, a gente sempre se atentou para também fazer o possível para ser lugar seguro para pessoas LGBT e mulheres", relata. O termo "flopar", comum na comunidade, facilitou a identificação, mas foi a proposta de um espaço seguro e livre que solidificou a troça como ponto de encontro desde 2016.

Resistência e desconstrução através da cultura

Em Igarassu, a iniciativa de Raphaela, uma mulher trans, levou à criação de um grupo de coco formado por pessoas transexuais dentro de um Terreiro de Candomblé. "A ideia era combater a transfobia, todos os tipos de racismo, injúria racial, racismo religioso e todas as práticas discriminatórias", afirma. Ela reflete sobre o processo contínuo de luta: "O preconceito, a exclusão, a discriminação de raça, de gênero e política, não deixam de existir de uma hora para outra. É uma construção de desconstrução, em busca de evolução. Só em estar, já é uma forma de resistência".

Programação estendida: Cinzas da Diversidade

A celebração da diversidade não se limita aos dias oficiais de carnaval. Na Quarta-feira de Cinzas (18), o evento Cinzas da Diversidade toma conta do bairro do Ibura, na Zona Sul do Recife, com uma programação extensa dedicada à comunidade LGBTQIA+. A festa inclui:

  • Shows e performances de drag queens renomadas
  • Concurso da Rainha da Diversidade, com participantes como Katty Saimon, Morgana Flyer e Rita Rivotril
  • Apresentações de artistas como Olivier, Duda Mel, Betania Borges e Sacha Mummrá
  • Segundo bloco com atrações como G Gmazone, Leandra Gitana e Andrômeda Glam

Essa iniciativa demonstra como a pauta da diversidade tem ganhado força e estrutura no Recife, transformando o carnaval em um período prolongado de visibilidade, alegria e resistência para a comunidade LGBTQIA+.