Bloco da Vaca mantém tradição de 96 anos em Artur Nogueira, interior de SP
Bloco da Vaca: 96 anos de tradição em Artur Nogueira

Bloco da Vaca celebra 96 anos de tradição em Artur Nogueira

O som característico do batuque, a correria pela avenida e os icônicos bonecos de vaca representam muito mais do que simples símbolos carnavalescos para os moradores de Artur Nogueira, no interior de São Paulo. Para muitos habitantes da cidade, o Bloco da Vaca está profundamente entrelaçado com suas memórias de infância, formação pessoal e identidade cultural local.

Uma tradição que atravessa gerações

Iniciada em 1930, esta tradição carnavalesca se mantém vibrante quase um século depois, sendo continuamente transmitida entre diferentes gerações de famílias nogueirenses. Neste domingo (14), a partir das 18 horas, a cidade presenciará pela 96ª vez o desfile que simula uma emocionante corrida de touros pelas ruas.

O mestre de bateria David Allan Martins, de 41 anos, personifica perfeitamente como essa tradição se enraíza nas famílias. Neto de um antigo integrante da bateria, ele cresceu ouvindo os ritmos característicos que ecoavam das ruas e começou a frequentar os ensaios ainda na infância. Atualmente, acumula 28 anos de participação no bloco e 12 anos comandando a bateria principal.

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"Quando eu era mais novinho, escutava o barulho da bateria e isso me chamava muita atenção. A gente vinha para os ensaios e eu fui me envolvendo naturalmente", relata David.

Herança familiar e novos talentos

Ao lado do pai, encontra-se Lara Chichurra Martins, de apenas 12 anos, que participa do bloco praticamente desde seu nascimento. A jovem aprendeu a auxiliar na pintura dos bonecos e até a tocar diferentes instrumentos da bateria. Para ela, o momento mais emocionante ocorre quando a vaca completamente pronta ganha as ruas e anima a multidão de espectadores.

"É uma emoção indescritível, né? Porque daí você vê todo mundo junto, se unindo, e na hora sai tudo perfeito. É realmente muito bom", afirma Lara com entusiasmo.

Além da transmissão familiar, o bloco também atrai novos integrantes através da curiosidade e do forte sentimento de comunidade. Muitos participantes aprendem ali seu primeiro instrumento musical ou descobrem talentos artísticos que desconheciam possuir.

Pedro Henrique Scarpa Mansur, com 12 anos de participação, exemplifica essa trajetória. Ele brincava o carnaval de Artur Nogueira desde pequeno, começou a tocar na bateria seguindo o exemplo do irmão mais velho, e há oito anos também auxilia na confecção artesanal das vacas. Durante o desfile, atua como "anjo" da vaca, responsável pela proteção do boneco principal.

"Não tem uma única vez que eu toco nessa bateria que não arrepio todos os pelos do braço. É extremamente gratificante ver todo mundo na rua esperando a vaca passar, sair correndo, tomar pancada... Se você for explicar isso para alguém de fora, vai dizer que você é louco. Mas nossa, é uma delícia, eu adoro isso aqui", descreve Pedro com paixão.

Patrimônio cultural construído pela comunidade

Segundo os organizadores, a força e resistência do Bloco da Vaca residem precisamente na ampla participação popular. Todo o trabalho envolvido – desde a construção meticulosa das vacas até os ensaios regulares da bateria – é realizado de forma completamente voluntária.

"Existe a satisfação de fazer parte, a satisfação da amizade, do coletivo, e a satisfação maior de estar podendo contribuir para essas coisas. Para ser sincero, você não vai conseguir entender completamente se não vir pessoalmente", comenta Leandro Queiroz, um dos organizadores do bloco.

Leandro explica que a história do bloco remonta aos imigrantes espanhóis que se estabeleceram na cidade, especialmente membros das famílias Puzo e Montóia. Inspirados nas tradicionais touradas e na famosa festa de San Fermín, em Pamplona, criaram uma versão local da brincadeira utilizando uma vaca de pano para "correr" atrás da população.

Preservação do método artesanal

Décadas após sua criação, a estrutura artesanal do bloco permanece praticamente inalterada. Tudo continua sendo feito manualmente, utilizando materiais como cipó, madeira, espuma e tecido. O processo de construção, que se inicia meses antes do Carnaval, envolve etapas como:

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  • Corte do cipó diretamente na mata
  • Costura cuidadosa das estruturas
  • Pintura detalhada dos bonecos
  • Ensaios regulares da bateria

"Eu gostaria de continuar acompanhando, passando de geração em geração, para que nunca acabe, para sempre, nunca acabe", expressa a pequena Lara, demonstrando o desejo de perpetuar essa tradição familiar e comunitária.

O Bloco da Vaca se consolida assim não apenas como uma atração carnavalesca, mas como um verdadeiro patrimônio cultural vivo de Artur Nogueira, mantendo viva uma tradição que une passado, presente e futuro através do trabalho dedicado de voluntários e do amor transmitido entre gerações.