Beija-Flor transforma Bembé do Mercado em enredo carnavalesco para 2026
A escola de samba Beija-Flor de Nilópolis vai ocupar o Sambódromo do Rio de Janeiro em 2026 com um enredo que homenageia o Bembé do Mercado, uma celebração de rua realizada por casas de candomblé em Santo Amaro da Purificação, na Bahia. Como destaca a sinopse da agremiação, em um país que aboliu a escravidão sem reparações adequadas, ocupar espaços é uma forma de autorreparação para a comunidade negra.
Enredo conectado à ancestralidade e resistência
Em entrevista à Agência Brasil, o carnavalesco João Vitor Araújo reforçou que o enredo deste ano segue a tradição da Beija-Flor de contar histórias fortes para celebrar a ancestralidade preta. Após a vitória em 2025 com uma homenagem ao carnavalesco Laíla, Araújo buscou manter a escola conectada aos ancestrais em 2026. "Eu queria dar continuidade ao enredo do Laíla. Achava que era uma história muito grande e importante para ser finalizada rapidamente", revelou.
O Bembé do Mercado ocorre desde 1889, no dia 13 de maio, marcando o primeiro ano da Abolição da Escravatura. O enredo da Beija-Flor vai narrar ao público da avenida o grito que denuncia a incompletude da Lei Áurea, enfatizando que liberdade inclui o direito de se manifestar na culinária, na dança, na música e, principalmente, na religião, levando o candomblé para as ruas.
Autorização espiritual e participação da comunidade
A escolha do enredo envolveu uma autorização espiritual, obtida através de um jogo de búzios conduzido por Pai Pote, presidente atual do Bembé do Mercado. João Vitor Araújo explicou que a setorização do desfile foi aprovada nos pés de Ogum, trazendo alívio e confirmando que o trabalho estava no caminho certo. "Pedimos licença a Pai Pote e às lideranças culturais para carnavalizar cada fantasia sem desrespeito, pois isso é sagrado", relatou.
Além da aprovação espiritual, o carnavalesco destacou a aceitação positiva do enredo pela comunidade da escola. "A sinopse é muito bonita, mas, no dia do desfile, a sinopse são eles. São eles que carregam o enredo dali para frente", observou Araújo, referindo-se aos componentes que vivem e respiram a Beija-Flor.
Novos intérpretes e expectativas para o desfile
Após 50 anos, Neguinho da Beija-Flor se despediu dos desfiles, e em 2026 a escola contará com novos intérpretes: Nino Milênio e Jéssica Martin. Nino, com mais de 20 anos de carreira, vê a nova função como uma grande responsabilidade e honra. "É uma vaga difícil, ocupada por 50 anos. Sei o tamanho do peso e da grandiosidade disso tudo", declarou.
Jéssica Martin, que também estreia como intérprete da Beija-Flor, expressou felicidade em dividir essa função. "Suceder o mestre Neguinho está sendo uma honra. Nunca imaginei que isso aconteceria com a minha vida", disse. Ambos elogiaram a qualidade do samba-enredo, composto por 12 compositores, e prometem levar o enredo para a avenida com muito respeito.
Detalhes do desfile e programação do Grupo Especial
O enredo foi dividido em seis setores, cada um representando um dia de festa, começando com a cor branca e o elemento água. O carnavalesco enfatizou a importância de equilibrar aspectos artísticos e carnavalescos em um tema sério, evitando qualquer vilipêndio.
A Beija-Flor desfilará no segundo dia do Grupo Especial do Rio de Janeiro, na segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026. A ordem dos desfiles inclui outras escolas como Mocidade Independente de Padre Miguel, Unidos do Viradouro e Unidos da Tijuca, cada uma com enredos diversificados que celebram a cultura brasileira.
Com informações da Agência Brasil, a Beija-Flor se prepara para um carnaval que promete emocionar e conscientizar, honrando a rica herança afro-brasileira e a luta contínua por igualdade e reconhecimento.