Aprenda a sambar com os mestres que treinaram famosas para o carnaval
Será que o samba no pé é realmente acessível a todas as pessoas? Qualquer indivíduo, independentemente de sua experiência ou características físicas, pode dominar os movimentos característicos dessa dança tão brasileira? Questões como a postura correta, a famosa "molejo", o gesto do tapinha no peito e outros elementos essenciais para brilhar na avenida durante o carnaval são abordadas por especialistas renomados.
Professores de celebridades ensinam os segredos do samba
O portal g1 reuniu os coreógrafos e professores Victor Allonzo, Marcus Prado e Mary Prado para uma aula especial no Centro Cultural São Paulo. Esses profissionais possuem um currículo impressionante, tendo ministrado aulas para estrelas como Sabrina Sato, Mileide Mihaile, Erika Januza, Lexa, Rafa Kalimann, Thaila Ayala e muitas outras personalidades do mundo do entretenimento.
Além de demonstrarem detalhadamente o que fazer com os pés, braços e quadril, os instrutores também esclarecem dúvidas frequentes sobre o tempo de aprendizado e a importância de gestos específicos durante os desfiles. Confira a seguir as principais orientações.
Todos podem aprender a sambar?
"Todo mundo pode sambar", afirma com convicção Mary Prado, diretora da ala de passistas da Camisa 12. Ela explica que a dança promove uma autoafirmação pessoal para quem realmente aprecia dançar e busca se sentir bem consigo mesmo.
A dança, segundo Mary, possui um poder inclusivo extraordinário, atraindo pessoas de todos os tipos físicos, etnias e classes sociais. "A dança ela atrai todos os povos, todas as culturas e ela agrega. Então todo mundo pode dançar, sim. Se um dia alguém disser que não, não acredite", enfatiza a professora.
Quanto tempo é necessário para aprender?
Mary Prado ressalta que o samba no pé está intrinsicamente ligado ao corpo de cada indivíduo. Portanto, cada aluno possui seu próprio ritmo de aprendizado e limitações particulares, que devem ser respeitadas pelos educadores.
"O mais importante é cada pessoa se sentir bem dentro do seu próprio tempo", destaca a especialista, sublinhando a importância da paciência e da autoaceitação durante o processo.
Princípios básicos do samba no pé
Victor Allonzo, passista de ouro da Águia de Ouro, define o samba como uma dança essencialmente solo. "É você por você mesmo", explica. Ele detalha que a prática envolve o trabalho de todo o corpo, incluindo braços, pernas, quadris, joelhos e pés.
O movimento inicia no pé, simultaneamente com a ação dos braços, criando uma conexão harmoniosa. "Ao mesmo tempo em que você troca a perna, você troca o braço. Dessa forma, você consegue ter um acompanhamento da bossa do ritmo sem se perder e com maestria, mostrando a elegância do bom samba no pé", ensina Victor.
Evolução do samba de carnaval de avenida
Nos últimos anos, vídeos de rainhas de bateria executando coreografias elaboradas ao longo do percurso viralizaram nas redes sociais. Mary Prado observa que, embora o samba de carnaval de avenida tenha passado por transformações ao longo do tempo, essa integração entre dança e bateria não é uma novidade absoluta.
"Viraliza porque a internet traz muito essa ideia da visibilidade, mas para quem já desfila há muitos anos, não é novidade. Aqui em São Paulo isso sempre aconteceu. As mulheres sempre foram muito ligadas ao que a bateria estava fazendo, porque a bateria é o coração da escola de samba", comenta.
No entanto, ela alerta para a necessidade de equilíbrio. "Mas não dá para ser só isso, tem que ser bem equilibrado. Porque às vezes fica mais as dancinhas que viralizam do que o samba. Tem que equilibrar para ficar harmonioso para todo mundo".
Diferenças entre samba de bloco, de roda e de avenida
Marcus Prado, também passista de ouro da Águia de Ouro, esclarece as distinções entre os diversos contextos do samba. Nos bloquinhos, predominam marchinhas, onde as pessoas frequentemente se divertem, pulam e brincam, sem necessariamente executar o samba tradicional.
Já no samba de roda e no carnaval, a diferença reside principalmente no andamento. "Você vai numa roda de samba, é um samba, é um pagode, então é tudo mais tranquilo. Tem um momento de dar uma acelerada, obviamente, mas o carnaval é o tempo inteiro lá em cima", explica Marcus.
Ele também enfatiza a importância crucial da preparação física para enfrentar a avenida, pois não basta apenas saber sambar. "Você tem que controlar a respiração, porque muitas vezes acontece de você se entregar demais. E aí, se você não controla sua respiração, começa a ficar com dores, com dificuldade para respirar. E você tem que sorrir, tem que cantar".
Para as mulheres, os desafios podem ser ainda maiores. "Tem o salto, tem uma cabeça [da fantasia] um pouco mais apertada, um biquíni. São muitos fatores que podem atrapalhar se você não estiver 100% preparado", adverte o professor.
O significado do tapinha no peito
Recentemente, um vídeo do professor Carlinhos Salgueiro sinalizando para Virgínia Fonseca colocar a mão no peito durante um ensaio da Grande Rio viralizou nas redes sociais. Marcus Prado explica que esse gesto pode estar relacionado ao enredo da escola, mas também simboliza respeito à instituição e à bateria.
"Você tem um exército atrás de você. Então, ela precisa mesmo reverenciar essas pessoas com muito amor e respeito. O gesto da mão no peito, no coração, é no sentido de amar e respeitar, estou aqui de corpo e alma", contextualiza.
Por essa razão, Marcus defende a importância de as rainhas compreenderem esses detalhes, dedicando-se aos ensaios e à escola durante todo o ano, e não apenas nas vésperas do desfile. "Por isso, nós, como professores, lutamos muito para que as rainhas sempre sejam aquelas que se dedicam bastante. Não só que nasçam no samba, que eu acho que não é uma regra. Posso chegar amanhã, mas desde que eu treine um ano inteiro para, no ano que vem, estar representando totalmente. Que seja de coração", conclui.