Atleta ucraniano é banido das Olimpíadas de Inverno por usar capacete com homenagem a mortos
O atleta ucraniano Vladyslav Heraskevych foi oficialmente banido dos Jogos Olímpicos de Inverno de 2026, em Milão-Cortina, na Itália, na manhã desta quinta-feira (12). A decisão do Comitê Olímpico Internacional (COI) marca o desfecho da maior controvérsia da competição até o momento, envolvendo questões de neutralidade política no esporte.
O conflito sobre o capacete memorial
Heraskevych, que foi porta-bandeira da Ucrânia na cerimônia de abertura, planejava competir na prova masculina de skeleton usando um capacete especial ilustrado com imagens de atletas ucranianos mortos durante a invasão russa. O COI, no entanto, considerou que o ato infringia a Carta Olímpica, que reúne as normas e regulamentos que regem a organização dos Jogos.
Após ser informado na terça-feira (10) que não poderia competir usando o capacete, Heraskevych manteve sua posição durante dois dias de discussões. Diante da recusa do atleta em acatar a ordem, o COI confirmou na manhã de quinta-feira sua desqualificação do torneio.
As regras do COI e a questão da expressão
O organismo olímpico mencionou especificamente a regra 40.2 da Carta Olímpica, que estabelece diretrizes para a expressão dos atletas criadas em 2023. As normas determinam que "o foco dos Jogos Olímpicos deve se manter no desempenho dos atletas, no esporte e na harmonia que os Jogos procuram promover".
Segundo o COI, é um princípio fundamental que o esporte nos Jogos Olímpicos seja neutro e separado de interferência política, religiosa e de qualquer outro tipo. As orientações permitem que atletas expressem opiniões durante pronunciamentos à imprensa, nas redes sociais e no campo de jogo antes das competições, mas proíbem expressões durante as cerimônias de entrega de medalhas, nas competições em si e na vila olímpica.
O último apelo e a decisão final
A presidente do COI, Kirsty Coventry, visitou Heraskevych e seu pai em Cortina às 7h30 da manhã do dia da competição para fazer um último apelo. Coventry, ex-atleta olímpica e medalhista de ouro pela natação do Zimbábue, declarou que teve um encontro longo e respeitoso com o atleta, mas não conseguiram chegar a um acordo.
"Ninguém está discordando da mensagem", afirmou Coventry à imprensa. "Esta é uma mensagem poderosa de lembrança, uma mensagem de memória, e ninguém discorda dela. Infelizmente, não conseguimos chegar a uma solução." A presidente do COI foi vista em lágrimas após deixar a reunião.
A defesa da decisão pelo COI
Em entrevista coletiva na manhã desta quinta-feira, o porta-voz do COI Mark Adams defendeu a decisão de banir Heraskevych. Adams argumentou que, se permitissem que atletas usassem equipamentos homenageando mortos em guerras, os Jogos seriam abertos à exploração política.
"Existem 130 conflitos em andamento a todo instante, segundo a Cruz Vermelha", declarou Adams. "Não podemos ter a todos em competição entre si nos Jogos. O campo de jogo poderia se tornar um campo de expressão e poderíamos vê-lo ser levado ao caos."
O porta-voz também negou que a entidade tenha sido pressionada pelo Comitê Olímpico russo ou pelo governo de Moscou para tomar a decisão.
Reações e apoio ao atleta
A desqualificação de Heraskevych gerou comoção e condenação de diversos atletas olímpicos. Lizzy Yarnold, duas vezes medalhista de ouro no skeleton pelo Reino Unido, declarou à BBC Sport: "Acho, na verdade, muito surpreendente. Existe surpresa e comoção entre os praticantes da modalidade. O COI deve a ele um pedido de desculpas."
O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, acusou o COI de "fazer o jogo do agressor russo" após a desqualificação. Em publicação no X, antigo Twitter, Zelensky escreveu: "O esporte não deve significar amnésia e o movimento olímpico deve ajudar a impedir as guerras, sem fazer o jogo dos agressores."
Colegas de equipe de Heraskevych demonstraram apoio durante as competições desta quinta-feira. Dmytro Shepiuk, do esqui alpino, exibiu uma nota com os dizeres "Heróis ucranianos conosco", enquanto Olena Smaha, do luge, usou uma luva com a mensagem: "Relembrar não é uma infração."
O recurso e o futuro do atleta
Heraskevych declarou à CNN Sports que pretende apresentar um recurso urgente contra a decisão à Corte de Arbitragem do Esporte (CAS). O CAS pode reunir comitês com fins específicos durante os Jogos, possibilitando que seu recurso seja julgado horas após a proibição.
O atleta expressou sentimentos de vazio após a decisão: "Eu poderia estar entre os medalhistas deste evento, mas, de repente, devido a alguma interpretação das normas com a qual eu não concordo, não posso competir. Acredito que eles [os que caíram] mereçam estar aqui, devido ao seu sacrifício."
O COI restabeleceu o credenciamento de Heraskevych, permitindo que ele permaneça presente aos Jogos e na vila olímpica pelo restante da competição, mas sua participação ativa nas provas foi definitivamente encerrada.
