As duplas sertanejas são um formato consolidado na história da música brasileira, resultado de uma evolução técnica e comercial que transformou a música rural em um fenômeno nacional. Esse modelo tem dado certo desde 1929, mas por que ter uma segunda voz é tão vantajoso no sertanejo?
A lógica das vozes no sertanejo
No sertanejo, a divisão de vozes segue uma lógica simples: tradicionalmente, a primeira voz costuma ser a mais aguda, ou seja, mais fina, enquanto a segunda é a mais grave. Muitos ouvintes não identificam individualmente a segunda voz, o que leva a um engano comum: pensar que ela não é tão relevante. No entanto, quem entende do assunto garante: ela não é apenas um acompanhamento, mas um complemento essencial que trabalha dentro da melodia para criar uma sonoridade cheia e rica.
Metáfora do prédio musical
O músico e podcaster Daniel Teixeira Lopes, conhecido como Willian Segundeiro Raiz, é referência no ensino da segunda voz e explica o dueto sertanejo usando a metáfora de um prédio de sete andares. O prédio representa o tom da música, e os sete andares correspondem às sete notas musicais. A primeira voz está em um andar mais alto, como o sétimo, enquanto a segunda está em um mais baixo, como o terceiro ou o quarto.
“Elas vão estar sempre mudando de andar e caminhando. Sempre a primeira voz para o agudo, e a segunda voz para o grave. De vez em quando, elas vão até se encontrar, fazer a mesma voz, que a gente chama de uníssono”, explica Willian. As vozes também podem se inverter: quando a segunda voz sobe para um andar mais alto que a primeira, acontece a tercinha, uma técnica popular no sertanejo, especialmente em duplas dos anos 1990, como João Paulo e Daniel, e Leandro e Leonardo.
Essa mudança de andares ou notas é fundamental para criar harmonia e a sensação de preenchimento sonoro tão característica do gênero. Com essa dinâmica, os cantores evitam que a música fique monótona. É como se as vozes desenhassem a melodia: uma pode fazer um traço mais reto enquanto a outra oscila, sobe e desce. “Fica errado se ela sair de algum andar ali para um outro prédio”, diz Willian, referindo-se a sair do tom da música, ou seja, desafinar.
Complexidade da segunda voz
Fazer a segunda voz é uma tarefa complexa, pois não significa apenas cantar uma oitava abaixo da primeira. “Ela tem que trabalhar ali, dentro da melodia da primeira”, afirma Segundeiro Raiz. Isso também explica por que, às vezes, as carreiras solo de ex-parceiros não fazem tanto sucesso quanto a dupla. “Podemos falar de Christian e Ralph, e de Edson e Hudson. Lógico que o Edson teve a carreira solo dele, mas a dupla voltou e olha como está hoje. Voltaram fortes demais”, exemplifica Willian.
O arrependimento de Edson e Hudson
Por falar em Edson e Hudson, a dupla fala abertamente sobre um único arrependimento na trajetória de 30 anos. “A gente não se arrepende praticamente de nada que fizemos na carreira. A não ser a separação”, diz Hudson. Os irmãos se separaram no fim de 2009 e retomaram a parceria em 2011. “Para mim, foi a pior fase da minha vida no sentido da falta que o Hudson fazia”, afirma Edson. “Porque a base de tudo está nos arranjos, na boa ideia da melodia, na segunda voz que ele fazia”. Edson destaca que a segunda voz é mais difícil do que a primeira, e que Hudson não é apenas um segunda voz, mas um arranjador e produtor. “Ele sentiu falta de mim, mas como eu estava na estrada, eu senti mais. Não é fácil carregar as coisas nas costas não. Tanto que eu pus dois caboclos lá e não davam conta não”, lembra Edson.
Casamento de timbres
Edson e Hudson têm outra vantagem: por serem irmãos, os timbres de voz são parecidos, o que faz com que uma voz case na outra. No entanto, a técnica pode suprir a falta de parentesco, como no caso de João Paulo e Daniel, que não eram irmãos mas tinham vozes que timbravam perfeitamente. “Ele tinha uma extensão vocal muito interessante: cantava muito agudo e muito grave. Praticamente nenhum dos segundeiros da época tinha isso”, explica Willian.
Outro ponto importante é que ter carreira solo não significa não ter segunda voz. É comum que o próprio cantor grave a segunda voz e a coloque na edição final, como fizeram Gusttavo Lima, Cristiano Araújo e Barrerito, do Trio Parada Dura. O sucesso depende da harmonia entre as vozes, sejam elas cantadas por duas pessoas ou pela mesma pessoa em tons diferentes. “A primeira voz automaticamente tem um pouco mais de potência, ela chega chegando mesmo. A segunda já é um pouquinho mais atrás. Mas se o segunda voz não consegue alcançar os tons do primeiro, não quer dizer que ele não cante. Não tem nada a ver uma coisa com a outra”, conclui Willian.



