Há 20 anos, enquanto o mundo via nascer o YouTube e o Orkut dominava a internet no Brasil, uma nova tradição surgia em Ribeirão Preto (SP). Após uma década sem grandes rodeios, a cidade recebia a primeira edição do Ribeirão Rodeo Music, em maio de 2005. O que começou como aposta de empresários locais se transformou em um dos maiores eventos do calendário sertanejo e do rodeio nacional. Para marcar as duas décadas, o g1 relembra histórias da estreia, bastidores e a trajetória de quem ajudou a construir essa arena.
Como tudo começou
A ideia nasceu em um momento em que Ribeirão Preto, com forte tradição agropecuária, sentia falta de um grande evento do gênero. Segundo Matheus Calil, empresário e um dos fundadores, a cidade já havia vivido rodeios no fim dos anos 1990 e a antiga Feira Agropecuária. “Final da década de 90, Ribeirão teve rodeio. Ribeirão tinha uma grande feira agropecuária, na qual nós passamos a infância. Em 2005, juntamos um grupo de empresários”, relembra. O objetivo era criar algo novo, que dialogasse com a identidade regional. “Nós queríamos criar algo novo, uma marca nova. Foi aí que nasce o Ribeirão Rodeo Music, que une rodeio, música e a nossa cidade, que é Ribeirão.” Inspirado pela força do agronegócio regional e por referências como a Festa do Peão de Barretos, que em 2005 completava 50 anos, o evento nasceu com a proposta de unir montarias e shows musicais de diferentes estilos.
Uma estreia com mistura musical – e uma lição imediata
Na primeira edição, o line-up refletia um momento de transição da música brasileira. O sertanejo universitário começava a ganhar força, enquanto nomes consagrados como Bruno & Marrone dominavam as rádios. Artistas como Edson & Hudson lotaram a arena com 15 mil pessoas ao som de hits como “É Amor Demais”, “Galera Coração” e “Festa Louca”. Integrantes do Clube da Viola, o cowboy Juliano Cezar e as duplas Mauricio & Marcelo, Guilherme & Gustavo e Roby & Roger também se apresentaram. Mas a escalação de Skank se tornou uma das histórias mais lembradas. “Sendo bem sincero, foi muito baixo o público. Foi quando a gente percebeu que, em rodeio, o público quer ver música sertaneja”, conta Matheus. O episódio ganhou contornos curiosos nos bastidores: o organizador lembra de uma conversa franca com o vocalista Samuel Rosa. “Ele perguntou o que eu estava achando do show. Eu falei: ‘Sobe no palco que você vai ver’. Ele perguntou: ‘Tem pouco público?’ E eu respondi: ‘Não tem ninguém’.” A situação consolidou a decisão de apostar no sertanejo como protagonista absoluto. “O que impulsiona o segmento de rodeio é a música sertaneja em todas as suas vertentes. O pop rock não deu liga.”
A voz que atravessou duas décadas
Se a identidade musical foi se construindo ao longo do tempo, um elemento permaneceu desde o primeiro dia: a locução de rodeios de Adriano do Vale. Presente desde a estreia, ele lembra da emoção de participar de um projeto em formação. “Estrear, fazer parte desde o comecinho, foi bem legal. Era tudo muito organizado, mas você sente aquele friozinho na barriga.” A estrutura era bem diferente da atual grandiosidade. “Nós fizemos rodeio em touros, acho que umas 20 ou 25 apresentações. Era um evento menor, porque estava começando. Eu lembro que a arena era mais estreitinha.” Duas décadas depois, ele resume o prestígio conquistado: “Todo artista quer estar naquele palco, todo locutor de rodeio quer estar naquela arena. Estou muito feliz de estar aqui há 20 anos, desde a primeira edição.”
Peão gringo, campeão famoso e 25 mil pessoas
A primeira edição também teve atrações na arena, com participação internacional de peões dos Estados Unidos, patrocinados por uma marca de cigarros. O título da montaria em touros ficou com Rinaldo da Silva, conhecido como Formiguinha. Natural de Tupã (SP), ele faturou R$ 5 mil e foi classificado para o Rodeio Internacional de Barretos. Formiguinha já era conhecido por seus feitos nas arenas e por ter atuado como dublê do ator Matheus Nachtergaele na novela “América”, da TV Globo, que interpretava o peão Carreirinha. Ao longo de quatro dias, cerca de 25 mil pessoas passaram pelo evento. Para Matheus, o resultado foi mais importante pelo impacto simbólico do que pelo financeiro. “Acho que sucesso financeiro eu não diria, mas também não deu prejuízo. Foram grandes desafios. O mais bacana foi o nível de aceitação das pessoas. A comunidade de Ribeirão Preto abraçava ali o novo filho.”
Impacto cultural e projeção nacional
Ao longo de 20 anos, o Ribeirão Rodeo Music se consolidou como um dos principais eventos de entretenimento do interior paulista, movimentando setores como hotelaria, gastronomia, transporte e comércio local, além de reforçar a ligação de Ribeirão Preto com o universo sertanejo e do agronegócio. A edição de 2026 reforça esse posicionamento com nomes como Zezé Di Camargo & Luciano, Matogrosso & Mathias, Bruno & Marrone, Ana Castela, Gusttavo Lima e Wesley Safadão, além da atração internacional inédita: o cantor country americano Drew Baldridge, que faz sua estreia na América Latina. Para Matheus, o evento se consolidou como um espaço plural. “O Ribeirão Rodeo Music é um momento de alegria, onde as famílias estão presentes. É um evento para todas as idades e para todas as vertentes de público. Nós queremos esse evento para sempre.” Duas décadas depois, a arena cresceu, o palco ficou impactante, o evento ganhou ares de festival com quatro grandes shows por dia e o público se multiplicou. Em 2025, só a noite com Luan Santana, Jorge (sem Mateus), Murilo Huff e Clayton & Romário recebeu 52 mil pessoas, um recorde. Mas a essência da aposta de 2005 segue a mesma: transformar Ribeirão Preto, ao menos por alguns dias, na capital nacional da música sertaneja e do rodeio.



