A história de 'Jenga': como Leslie Scott criou um fenômeno global com blocos de madeira
A história de 'Jenga': criação de Leslie Scott com blocos de madeira

A origem africana de um fenômeno global

As regras são extremamente simples, mas o desafio é imenso. Com 54 blocos de madeira idênticos, empilhados horizontalmente em grupos de três sobre uma superfície plana, os jogadores se alternam retirando uma peça da torre e colocando-a cuidadosamente no topo. A estrutura, progressivamente instável, eventualmente perde o equilíbrio e desmorona. Quem provoca o colapso final é declarado o perdedor, enquanto a verdadeira vencedora, no fim das contas, é a implacável força da gravidade.

Este é o icônico jogo "Jenga", com aproximadamente 100 milhões de unidades vendidas em todo o planeta, um sucesso que dispensa qualquer tipo de apresentação formal. Apesar da simplicidade enganosa que sugere origens ancestrais, a verdade é que este fenômeno do entretenimento familiar nasceu há cerca de quatro décadas, fruto da imaginação vívida de Leslie Scott, uma designer britânica que passou sua infância no leste da África.

Infância competitiva e a primeira versão

"Somos uma família muito competitiva, no sentido de que, em qualquer reunião, acabávamos jogando algum jogo", revelou Scott ao programa Witness da BBC. "Se estávamos comendo azeitonas, por exemplo, disputávamos quem cuspia o caroço mais longe, ou coisas desse tipo", recordou com carinho.

Aos 18 anos, sua família se transferiu para Gana, onde ela e os irmãos mais novos estavam constantemente em busca de novas formas de diversão. "Meu irmão, que era bem mais novo, tinha um conjunto de blocos de madeira com os quais brincava. Eram sobras retangulares de uma serraria em Gana", explicou Scott. "Enquanto brincávamos, fomos transformando aquilo em um jogo de empilhar os blocos, tirando um e colocando-o por cima. Essa foi, digamos, a primeira versão do que viria a se tornar o 'Jenga'".

O momento 'eureka' e os primeiros passos comerciais

Após concluir seus estudos, Scott decidiu se mudar para o Reino Unido, levando consigo, em uma das caixas, seu amado jogo de infância. Nos anos 1980, seu namorado da época, um tenista profissional recém-formado em Oxford, era responsável por uma quadra no Merton College. Os colegas tenistas adoraram o jogo de blocos, tanto que pediram a Scott para organizar o entretenimento em um evento de arrecadação de fundos.

Ela contratou malabaristas, mas levou também sua criação. "Não era para aquilo ser o centro das atenções, mas foi o que mais ficou na memória das pessoas: meu jogo de blocos", afirmou. Esse foi o momento decisivo, o instante "eureka" em que ela percebeu o verdadeiro potencial comercial de seu passatempo infantil.

Fiasco inicial e persistência obstinada

Determinada a transformar o jogo em um produto comercial, Scott fundou sua própria empresa. Para financiar o projeto, convenceu gerentes bancários, pediu dinheiro emprestado ao namorado e, o mais arriscado, sua mãe foi fiadora de um segundo empréstimo, usando a própria casa como garantia.

Sob enorme pressão financeira, ela encontrou uma oficina no norte do Reino Unido e, em 1983, estava pronta para lançar o jogo na Feira do Brinquedo de Londres. "Achei que estava indo muito bem, mas não recebi nenhum pedido", lamentou Scott. "Nenhuma encomenda de toda aquela gente que deixou seus cartões depois da feira." Comercialmente, a experiência foi um fiasco completo.

O que ela recebeu, em contrapartida, foram muitos conselhos valiosos. Percebendo que ninguém investiria em uma empresa desconhecida com apenas um produto, Scott anotou as sugestões e começou a criar outros jogos, desenvolvendo um portfólio mais diversificado. Ela se autodenominou designer de jogos, uma profissão rara na época, e continuou oferecendo seu produto principal, chegando a viajar aos Estados Unidos em busca de um comprador.

Por volta de 1985, quando os videogames começavam a ganhar popularidade massiva, a situação era desesperadora. "Eu estava perdendo muito dinheiro e me endividando cada vez mais", confessou.

O golpe de sorte e a batalha pelo nome

Até que um golpe de sorte combinado com sua teimosia a resgatou da crise. Um amigo de um irmão que morava no Canadá a convidou para apresentar o jogo em um shopping center local. Lá, um executivo-chave da Irwin Toy, a maior empresa de brinquedos do país, viu a demonstração e levou o jogo aos diretores, que manifestaram interesse imediato em adquirir a licença de produção.

Havia, porém, um obstáculo significativo: a empresa não gostava do nome 'Jenga'. Scott, no entanto, se recusou terminantemente a ceder. "Eles disseram que gostavam muito do jogo, que adoravam […] mas odiavam o nome. Foi um ponto de virada. Eu simplesmente disse que não podia permitir que mudassem o nome. Tinha de ser 'Jenga'", recordou vividamente da conversa telefônica.

O significado por trás do nome

Mas por que tanta insistência em um nome aparentemente estranho e sem significado óbvio em inglês? A explicação está nas raízes africanas de Scott. "Nasci e cresci no leste da África e cresci falando suaíli. Minha mãe tinha um cachorro chamado Kucheza, que em suaíli significa 'jogar'", explicou. "Pensei que seria um ótimo nome para o meu jogo, mas já era o nome do cachorro. Kujenga significa 'construir' em suaíli. Então me pareceu um nome perfeito para o jogo."

E assim permaneceu 'Jenga', um termo que carrega em suas sílabas a essência do jogo: construir com cuidado e precisão.

Legado e reconhecimento mundial

Aos poucos, a popularidade do jogo se espalhou globalmente. Scott conseguiu pagar todas as suas dívidas, e sua mãe não precisou vender a casa que havia sido usada como garantia. Hoje, o Jenga integra o National Toy Hall of Fame nos Estados Unidos, um espaço dedicado a reconhecer brinquedos e jogos que mantiveram sua popularidade ao longo das décadas.

Desde aquela época desafiadora, Leslie Scott projetou e lançou mais de 40 jogos diferentes, mas nenhum alcançou o status cultural e comercial do simples jogo de blocos de madeira que nasceu de suas brincadeiras infantis na África. A história do Jenga é um testemunho do poder da criatividade, da persistência diante do fracasso e da importância de manter a autenticidade de uma visão original.