Carnaval Musical: Uma Seleção de Discos Nota 10 para a Folia
Parece que foi ontem que escrevi sobre o documentário “Becoming Led Zeppelin” para esta coluna, publicada dias antes do carnaval do ano passado. De fato, o tempo voa velozmente, consumindo nosso dia a dia numa velocidade em que horas e minutos passam despercebidos. A correria diária e a rotina repleta de informações e pressões nos impedem de parar para olhar em volta, sem a busca desenfreada por novidades ou a obrigação de compromissos que nos mantêm presos a correntes que nós mesmos criamos.
Neste carnaval, sem pressão nem obrigações, separarei todo esse tempo de folia que toma conta do país para colocar a leitura em dia, assistir a jogos do futebol europeu, conferir filmes e documentários e, claro, ouvir muita música. Escolhi alguns discos que preciso revisitar e que andam meio esquecidos nos últimos meses e anos. Cito aqui e deixo como dica para os leitores 10 álbuns que, neste desfile de alta qualidade sonora e criatividade, merecem nota 10.
1. Rik Emmett – Ten invitations from the mistress of Mr. E. (1997)
Com uma carreira solo de sucesso mediano, mas com ótimos álbuns em uma discografia extensa, o guitarrista canadense Rik Emmett foi membro da banda de hard rock Triumph da metade dos anos 1970 até o final dos 80. Além de craque na guitarra, Emmett possui boa voz que, neste interessante álbum acústico instrumental, não foi utilizada, sendo substituída por belos arranjos dominados por acordes de violões de cordas de nylon e aço. A preferida do álbum é a bela e delicada “Angelina’s smile”.
2. Steve Hackett – Bay of Kings (1983)
Belo álbum instrumental acústico do guitarrista inglês Steve Hackett, ex-membro da banda de rock progressivo Genesis durante os anos 1970 e início dos 1980. O título do álbom é uma tradução implícita de Angra dos Reis, trabalho solo inspirado em viagens ao Brasil, especialmente ao Rio de Janeiro, nos anos 1980, durante seu casamento com a artista plástica brasileira Kim Poor. Uma das faixas, “Kim”, é uma homenagem, assim como “Petrópolis”, inspirada em visitas à cidade serrana.
3. Guilherme Arantes – Interdimensional (2026)
O novo álbum do imenso artista, compositor, instrumentista e cantor Guilherme Arantes é excelente, lembrando aqueles ótimos lançados nas décadas de 1970 e 1980. Já ouvi algumas vezes e vou repetir a dose durante o carnaval. Destaco “Sob o Sol”, com um solo de guitarra afiado do seu parceiro Luis Sérgio Carlini; “Intergalática missão” e a maravilhosa “O prazer de viver para mim é você”, em versões cantada e instrumental.
4. Elvis Costello & Burt Bacharach – Painted from memory (1998)
Perdi as contas das vezes que ouvi essa obra-prima de Costello e Bacharach, principalmente durante a primeira década dos anos 2000. Vozes e arranjos da dupla são irretocáveis. As preferidas do álbum são “In the darkest place”, “Tears at birthday party” e “My thief”.
5. Steve Howe – Portraits of Bob Dylan (1999)
Álbum maravilhoso, mas pouco conhecido da carreira solo do ex-guitarrista da banda de rock progressivo Yes. Uma homenagem do extraordinário músico inglês a um mito da história da música mundial e um dos seus ídolos: Bob Dylan. Ótimas versões para “Lay lady lay”, “Bucket of rain” e “Going, going, gone”, interpretada de forma belíssima pelo vocalista Max Bacon.
6. George Harrison – All things must pass (1970)
Na semana passada, assisti a um curto vídeo do guitarrista Peter Frampton contando detalhes do convite para participar das gravações dessa obra-prima de George Harrison. Por isso, resolvi tirar nesses dias de descanso um tempo para ouvir pela centésima vez o álbum triplo do ex-Beatle. As preferidas são “I'd have you anytime”, “My sweet lord”, “All things must pass” e “Let it down”.
7. Cat Stevens – Tea for the tillerman (1970)
Depois de separar esse álbum para ouvir no carnaval, assisti, por coincidência, a uma ótima entrevista do empresário Bruno Wainer no podcast “De cara com a Secco”. Ele contou que o apartamento que serviu de cenário para o filme “Eu te amo” (1981) pertenceu ao músico, que compôs clássicos como “Wild world”, “Sad Lisa” e “Father and son”, presentes neste álbum de maior sucesso.
8. Zeca Baleiro – Líricas (2000)
Nesses dois anos de coluna, certamente já citei “Líricas” em algum momento. E cito novamente, pois esse álbum é um dos meus preferidos da história do pop nacional. Do início ao fim, este disco outonal do grande músico e compositor maranhense é belíssimo. Difícil escolher as melhores, mas “Minha casa”, “Proibida pra mim” e “Nalgum lugar” são as top 3.
9. Rita Lee – Bossa n' Roll (1991)
Gravado ao vivo em São Paulo, “Bossa n’ Roll” é um daqueles álbuns que você coloca para tocar e deixa rolar. Nele, está uma Rita Lee em plena forma vocal, interpretando de maneira única alguns de seus grandes sucessos e de outros artistas quase à capela, minimalista, só acompanhada de um violão. Destaco as versões para “Fool on the hill”, “Mutante” e “Baila comigo”.
10. Paul McCartney – Chaos and creation in the backyard (2005)
Quem me indicou esse álbum foi Tony Bellotto, em um encontro fortuito em uma livraria do Leblon, assim que foi lançado no Brasil, em 2006. Vendo que eu estava segurando o CD e em dúvida, o guitarrista dos Titãs disse: “– É muito bom!”. Com seu paladar apurado, ele tinha razão: o álbum é maravilhoso. McCartney, depois de trabalhos insossos, acertou a mão tocando quase todos os instrumentos. As preferidas são “How kind of you”, “Jenny Wren” e “This never happened before”.
