Celso Melo, primeira diretora travesti de educação infantil no Brasil, inspira com luta contra preconceito
Aos 49 anos, Celso Melo, residente em Avaré, no interior de São Paulo, se identifica como a primeira diretora de educação infantil travesti do país. No Dia Mundial da Discriminação Zero, celebrado recentemente, sua história de vida se destaca como um símbolo de resistência e crença em um mundo melhor. Celso é fortemente ativa nas redes sociais, onde publica vídeos sobre sua rotina no Centro de Educação Infantil "Carolina Puzzielo", em Avaré, e compartilha sua mensagem de inclusão.
Uma trajetória marcada pela diferença e superação
Celso relata que se enxerga como uma pessoa "diferente" desde a infância. Trabalhando na área da educação há quase 30 anos, ela afirma que se identifica como travesti por considerar o termo voltado à luta e combate ao preconceito. "Eu respiro educação desde sempre. Eu não me considero uma mulher trans, apesar de ser mais confortável. Eu sou uma travesti. A travesti é autêntica, sem máscaras, eu sou da luta das travestis", explica Celso. Em seus 29 anos de magistério, ela combate diligentemente o preconceito e suas facetas, enfrentando desafios especialmente no interior do país, onde há fundamentalismo e conservadorismo.
Embora faça parte da comunidade LGBTIQIA+, Celso cresceu em um lar religioso e conservador. Filha adotiva, foi abandonada pela mãe biológica ainda recém-nascida, em Itapeva (SP), sua cidade natal. "Minha mãe pegou um bebê de um mês e meio - no caso, eu - e jogou na calçada. Disse que, se não buscassem até as 17h, iria matar. As pessoas viram aquela mulher oferecendo a criança e isso foi algo que repercutiu muito nos jornais da cidade à época. Uma senhorinha me adotou e eu cresci nesse lar, onde eu agradeço muito aos meus pais", relembra Celso com emoção.
Repulsa ao conservadorismo e dedicação à educação
Com base nas características dos pais adotivos, Celso desenvolveu uma certa "repulsa" ao conservadorismo. Foi justamente a convivência com atitudes das quais discordava que a motivou a seguir carreira na educação. "Aprendi coisas sobre o conservadorismo que não são interessantes. O conservadorismo aprisiona, mata, violenta, dilacera. Para estar na posição de conversar com todo mundo e em uma comunidade que me respeita, eu acabei passando por diversas formas de violência que, hoje, eu tiro de letra, mas precisei tirar muita força", lamenta Celso.
Na visão dela, trabalhar com educação infantil sendo travesti é um desafio em dose dupla que enfrenta todos os dias. Estudiosa desde sempre, sua maior preocupação é propagar o conhecimento para todos os alunos matriculados na instituição, na teoria e na prática. "O que incomoda o sistema é o ato de estudar, é o ato de adquirir conhecimento. É ele que te tira do obscurantismo e é isso que eu levo à sala de aula", afirma Celso. Quando assumiu a direção, uma das primeiras ações foi transformar a biblioteca no coração da escola, com estantes baixas para facilitar o acesso das crianças.
Resistência e enfrentamento diário
Celso afirma que enfrentar as lutas em defesa da educação é um processo "custoso". Muitas pessoas estranham o fato de ela ser travesti e, ainda assim, ter optado por não alterar o nome de batismo. "Lutar pela educação envolve o nosso nome e, nisso, já causa estranheza às pessoas. Uma pessoa com nome de homem que sente-se mulher. Eu não mudei meu nome justamente como uma forma de resistência. É uma forma de protestar e resistir dentro da sociedade", reforça Celso. Ela destaca que todos os dias fica de pé na frente da escola, mostrando-se diligente e em contato com a comunidade.
Ativa nas redes sociais, Celso compartilha vídeos sobre a rotina escolar e convida pais a participarem das reuniões. No entanto, nem sempre foi bem recebida por pais e responsáveis, enfrentando situações constrangedoras. "Muitas pessoas não aceitam uma travesti em posição de poder. A travesti, para essas pessoas, está em um degrau social baixo, invisível, na precariedade da cidadania", pontua Celso. Ao todo, ela já registrou oito boletins de ocorrência por discriminação e afirma ter sido alvo de diversas ameaças.
Estatísticas alarmantes e esperança de mudança
Ao comparar os desafios atuais com os do início da carreira, há 30 anos, Celso avalia que a sociedade passou por transformações, ainda que parciais. Apesar dos avanços, ela ressalta as estatísticas relacionadas à expectativa de vida de pessoas trans e travestis no Brasil. "É lamentável saber que as trans e travestis não passam dos 30 anos em nosso país. O Brasil é o que mais mata essa parte da sociedade em todo o planeta. E eu quero fazer parte de uma mudança", compartilha Celso. Ela conversa muito com o conselho de pais, que cresceu com o tempo, vendo isso como princípio de gestão democrática e educação de qualidade.
Celso afirma ser a primeira diretora de educação infantil travesti de todo o país, tendo buscado evidências para confirmar isso através de pesquisas no IBGE e redes sociais. "Fucei as redes sociais, fiz pesquisas no Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e não encontrei uma travesti em posição de direção. Achei uma que é coordenadora em Natal (RN), mas, na creche, não encontrei ninguém", afirma Celso com determinação.
Estigma e futuro da educação inclusiva
Segundo Celso, fazer parte da comunidade LGBTQIA+ e atuar diretamente com crianças é uma combinação delicada. A diretora afirma que, no caso das travestis, ainda persiste um estigma injusto que associa a identidade de gênero à pedofilia, o que afasta muitas delas do trabalho com essa faixa etária. "O preconceito de creche ainda é muito grande. Existe esse estigma enorme envolvendo travestis e pedofilia, o que é horroroso. A sociedade não quer nos ver em cargos desse tipo", explica Celso. Ela percebeu que estava navegando sozinha, mas acredita que, quando o trabalho é bem feito, as coisas se espalham e as pessoas contam umas às outras.
Mesmo após 30 anos, Celso não planeja se afastar do magistério. Para o futuro, ela espera que as instituições de ensino sejam cada vez mais plurais culturalmente, abrangendo todos os tipos de comunidades. "Nós precisamos que as escolas sejam abertas à diversidade, à pluralidade, à população em um geral. Senão, nós vamos criar pessoas invisibilizadas interna e externamente. A escola é uma réplica da sociedade, então, nós conseguimos transformar de dentro para fora", finaliza Celso, com esperança de que a educação possa entender e integrar todas as vivências.
