Obra escrita na prisão em 1964, 'Verde Vagomundo' integra pavilhão paraense na Bienal de Arquitetura
'Verde Vagomundo', obra escrita na prisão, brilha na Bienal de Arquitetura

Obra escrita na prisão em 1964, 'Verde Vagomundo' integra pavilhão paraense na primeira Bienal de Arquitetura

Relançado em 2025 pela Editora Pública Dalcídio Jurandir da Imprensa Oficial do Estado, o romance "Verde Vagomundo", do escritor alenquerense Benedicto Monteiro, ocupa um lugar de destaque no pavilhão paraense da primeira edição da Bienal Brasileira de Arquitetura. O evento acontece em São Paulo de 26 de março a 30 de abril, reunindo a diversidade de olhares, territórios e modos de habitar do Brasil.

Uma história nascida da perseguição política

A obra foi escrita em 1964, quando Benedicto Monteiro, então deputado federal pelo Pará, enfrentou intensa perseguição política. Ao embarcar em um avião em fuga para Alenquer, sua cidade natal, para escapar de uma possível morte, o autor observou a infinitude do céu e encontrou a inspiração para criar "Verde Vagomundo" na prisão.

De acordo com o historiador Aldrin Figueiredo, inicialmente o escritor planejava desenvolver uma tese linguística de mestrado. "Ele faz uma longa pesquisa, uma longa investigação contando as histórias, relatos e memórias de pessoas do Baixo Amazonas, em especial, de Alenquer, sua terra natal", explicou Figueiredo.

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No entanto, devido ao golpe de 1964 e às questões políticas da época, a casa de Benedicto foi invadida, seu material de pesquisa foi roubado e sua biblioteca foi totalmente saqueada. Foi então que o autor decidiu transformar suas memórias de infância e as investigações guardadas em sua mente em um romance, abandonando o projeto acadêmico original.

A base linguística e histórica da obra

"O texto todo é baseado na palavra, na semântica. Ele apresenta uma Amazônia a partir dos termos, dos usos, do vocabulário. 'Verde Vagomundo' também tem uma base histórica", destacou Aldrin Figueiredo. O romance se destaca por sua abordagem única, que explora a região amazônica através da linguagem e das tradições locais, criando uma narrativa rica e profundamente enraizada na cultura paraense.

O pavilhão "Caminho dos Rios" e a homenagem à cultura paraense

O pavilhão paraense, intitulado "Caminho dos Rios", traduz com sensibilidade e profundidade a memória, os territórios e os saberes ancestrais do Pará. O espaço revela a potência dos fazeres amazônicos em uma narrativa espacial fluida, onde os rios se tornam estrutura e linguagem central.

O ambiente homenageia a cultura paraense, reunindo artistas e referências locais, como Fafá de Belém, Benedicto Monteiro e outros ícones. O livro "Verde Vagomundo" compõe o cenário, aparecendo na mesa do escritório da "casa paraense" montada no pavilhão.

A inspiração para a cenografia e arquitetura

Tuane Costa, responsável pelo Pavilhão Pará na Bienal de Arquitetura Brasileira, compartilhou a importância da obra para o projeto. "Em 2025, mergulhei no livro 'Verde Vagomundo', que foi uma grande inspiração para a criação da cenografia e da arquitetura da 'Varanda de Nazaré', realizada pelo Studio Tuca. Esse livro chegou até mim através da cantora Fafá de Belém — e, como essa casa paraense também foi pensada para ela, isso tornou a presença dessa obra ainda mais simbólica", contou Tuane.

A integração do romance no pavilhão reforça a conexão entre literatura, arquitetura e identidade cultural, destacando como as narrativas amazônicas podem influenciar e enriquecer expressões artísticas contemporâneas.

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