Travessão não é vilão: Machado e Dostoiévski mostram que sinal precede ChatGPT
Travessão não é vilão: Machado e Dostoiévski mostram uso literário

Travessão não é vilão: Machado e Dostoiévski mostram que sinal precede ChatGPT

Um sinal de pontuação está enfrentando um boicote intenso nas produções textuais contemporâneas — mesmo tendo sido utilizado por grandes gênios da literatura mundial. Desde que o ChatGPT e outras ferramentas de inteligência artificial se popularizaram, o travessão transformou-se em uma espécie de "prova do crime", como se sua presença fosse um atestado automático de autoria robótica.

Machado de Assis não digitava comandos para computadores

É evidente que Machado de Assis não digitou o seguinte comando para uma máquina: "Por favor, escreva um romance em que um morto, sem querer parecer virtuoso, conte sua vida com ironia e vaidade, como um 'defunto-autor' cruelmente elegante." Ainda assim, em "Memórias Póstumas de Brás Cubas" encontramos: "Mas, enfim, vivia. — E que mal há nisso? — perguntar-me-á algum leitor."

O travessão está lá, firme e forte, assim como aparece com frequência nas obras de Clarice Lispector, João Guimarães Rosa, Fiódor Dostoiévski e Marcel Proust. Vamos focar aqui em uma função específica desse sinal, justamente a que foi "vilanizada": não quando o travessão introduz a fala de um personagem, mas quando tem valor similar ao da vírgula.

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Uso sofisticado e acadêmico

"Normalmente, quando a pessoa quer aumentar a clareza do texto e variar a pontuação, ela pode optar pelo travessão. É um uso sofisticado, comum em textos acadêmicos e jurídicos", explica Eduardo Calbucci, professor de Linguagens do Curso Anglo. "A IA produz textos a partir de outros que já foram escritos. Se ela tomar como base materiais acadêmicos, vai imitá-los."

Ou seja: o travessão é um sinal "refinado" e característico de pessoas com amplo domínio da norma padrão da língua. Ele pode ter sido gerado por uma ferramenta de IA? Sim. Mas não necessariamente. Esse elemento, isolado, não deve levantar desconfiança do leitor.

Desconfiança deve vir da quebra estilística

"As pessoas estão tirando o travessão dos seus textos ou pedindo para o ChatGPT escrever uma resposta sem esse sinal. Passaram a ver como se fosse um problema. Só que a verdadeira desconfiança [do uso de IA] não deve vir de algo isolado assim, e sim de uma quebra estilística", afirma Calbucci.

Se o professor notar que o aluno mudou de estilo da noite para o dia e passou a adotar recursos mais refinados de linguagem, pode conversar com ele e entender a razão. A verdade é: não será a presença ou ausência do travessão que indicará se um texto é de IA.

Ferramentas de detecção não são garantidas

"Existem ferramentas hoje disponíveis que, em tese, mostram se um texto foi gerado por IA ou não, e qual o percentual feito pela máquina. Mas nenhum é garantido. Muitos podem gerar falsos positivos: dizer que um texto é de IA, mas ele não é", diz Luiz Leduíno de Salles Neto, professor do ICT/Unifesp.

Se, portanto, o travessão deixar um parágrafo mais claro e fluido, não se reprima — Dostoiévski está ao seu lado.

Exemplos literários de uso do travessão

Machado de Assis — Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881)

"A vida é uma ópera — e uma ópera grande, meu caro." O travessão destaca a comparação metafórica, dando ênfase e pausa reflexiva.

Clarice Lispector — A hora da estrela (1977)

Clarice usa o travessão para interrupções introspectivas ou para marcar o fluxo de consciência: "Ela não sabia que era nordestina — quem sabe nem sabia o que era isso — e por isso mesmo era tão livre."

João Guimarães Rosa — Grande Sertão: Veredas (1956)

Rosa emprega o travessão em interrupções reflexivas ou para enfatizar o tom de ensaio: "O senhor sabe: o diabo não existe — não é uma pessoa, é um estado — a gente dá passagem." Aqui, o travessão cria uma pausa para aprofundar a ideia filosófica.

Fiodor Dostoiévski — Crime e Castigo (1866)

Dostoiévski usa o travessão para pausas reflexivas, ironia ou interrupções no fluxo de pensamento: "He had become so... how shall I say it? — so completely absorbed in himself..." O travessão marca uma hesitação para buscar a "palavra certa".

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Outros exemplos internacionais

  1. Emily Dickinson (século XIX) usava abundantemente "dashes" para pausas abruptas e ênfase emocional
  2. Virginia Woolf em "Mrs. Dalloway" (1925) utilizava para interrupções no fluxo de consciência
  3. Marcel Proust em "Em Busca do Tempo Perdido" usava para digressões longas e reflexivas
  4. William Shakespeare em "Júlio César" (1599) já utilizava traços para interrupções dramáticas

O travessão, portanto, tem uma história literária rica e diversificada que precede em séculos as ferramentas de inteligência artificial. Seu uso criterioso continua sendo um recurso válido e sofisticado na escrita contemporânea.