Tradutor alemão de 'Grande Sertão' revela desafios diabólicos da obra de Guimarães Rosa
Tradutor alemão revela desafios diabólicos de 'Grande Sertão'

Tradutor alemão enfrenta 15 anos de trabalho para decifrar 'Grande Sertão: Veredas'

Quando o editor alemão Michel Krüger convidou Berthold Zilly para traduzir Grande Sertão: Veredas, o professor e tradutor já era um experiente viajante pelo território da literatura brasileira. Com traduções de Euclides da Cunha, Machado de Assis, Raduan Nassar e Lima Barreto em seu currículo, Zilly imaginava estar preparado. O que ele não previa era o tamanho do desafio que o aguardava.

Um texto diabólico e quase intraduzível

"Há algo de diabólico nesse texto", afirma Zilly em entrevista exclusiva. "Na medida em que eu, como leitor e principalmente como tradutor, quero captar o sentido de palavras, combinações de palavras e frases, constato que não pego nada. Ou capto uma pluralidade de significados e ambiguidades".

O tradutor explica que a dificuldade fundamental reside na natureza da linguagem rosiana: "Não há nenhuma frase que corresponda totalmente às convenções da lexicologia, da semântica, da gramática, da sintaxe e da lógica. Qualquer frase, em um, dois, três ou mais aspectos, se distancia da língua padrão, das convenções literárias e da lógica cartesiana".

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Quinze anos de imersão no universo rosiano

Zilly começou o trabalho em 2011 e está finalizando agora Grosser Sertão: QuerungenGrande Sertão: Travessia, em tradução livre —, que chegará às livrarias alemãs no início de 2027 pela editora Carl Hanser. Esta nova versão substituirá a primeira tradução alemã, realizada por Curt Meyer-Clason em 1964.

"Tenho até vergonha de dizer, muitos anos", admite o tradutor sobre o tempo dedicado ao projeto. "Comecei em 2011 e no total, foram uns 15 anos. Se tivesse podido me dedicar exclusivamente, talvez levasse a metade — cinco, seis, sete anos".

A diferença radical entre Rosa e outros autores brasileiros

Zilly, que já traduziu obras fundamentais da literatura brasileira, é categórico: "Traduzir Guimarães Rosa é infinitamente mais difícil do que traduzir Euclides da Cunha".

Ele explica a distinção: "Euclides era um neto do iluminismo. Ele acreditava na razão humana, na ciência. Guimarães Rosa foi além disso. Ele se afastou da racionalidade e lançou mão, muito mais do que ele, das qualidades sonoras da linguagem. Tem poucas frases em Guimarães Rosa sem figuras sonoras — há aliteração, assonância, rimas, todo um repertório de figuras estilísticas".

O hermetismo intencional e a magia da linguagem

Para Zilly, o hermetismo rosiano é deliberado: "Às vezes tenho a impressão de que o autor se entendia como feiticeiro. Ele queria captar e dar forma ao poder mágico da língua portuguesa para impressionar não só o intelecto, mas também o inconsciente e a emocionalidade do leitor".

Esta característica representa um desafio particular para o tradutor: "O tradutor não deve transformar o enigmático em clareza. Ao contrário, talvez seja até correto dizer que o tradutor tem que traduzir o incompreensível ou o dificilmente compreensível".

A esperança nas veredas e a universalidade da obra

Apesar das dificuldades técnicas, Zilly destaca o significado profundo da obra: "A vereda é um lugar de utopia, de paz, de felicidade, do amor, da relação harmoniosa entre a natureza e o homem — em contraste com o sertão, que é a área do conflito, da violência, dos ódios".

Para o tradutor, que vive na Alemanha próxima à guerra na Ucrânia, a obra ganha ressonância contemporânea: "Leio 'Grande Sertão: Veredas' também como um romance sobre a violência e sobre a esperança de superá-la, de chegar a uma convivência pacífica e civilizada".

Uma obra de múltiplas interpretações

Zilly enfatiza a pluralidade de leituras possíveis: "É um romance psicológico de formação e de deformação da alma humana, um romance sociológico, um romance de guerra, um romance de amor, um romance sobre questões de gênero. É também um romance profundamente emocionante sobre a relação entre o homem e a natureza".

O tradutor conclui: "É um grande romance sobre o sertão e sobre o mundo ao mesmo tempo — é muito brasileiro, muito regional e, ao mesmo tempo, universal".

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A nova tradução alemã chegará quase simultaneamente à versão inglesa "Vastlands: The Crossing", da tradutora australiana Alison Entrekin, que também dedicou dez anos ao trabalho. Duas línguas e duas décadas e meia de esforço para tentar capturar o que, segundo Zilly, resiste por princípio a ser completamente traduzido.