Arqueólogo de Imagens: O Resgate da Memória Fotográfica Vernacular do Rio
Resgate de 300 mil fotos antigas revela o cotidiano do Brasil

Há oito anos, o carioca Rafael Cosme, de 41 anos, empreende uma jornada singular pelas feiras de antiguidades e antiquários do Brasil. Seu objetivo: garimpar negativos, slides, cromos e fotografias produzidas por brasileiros anônimos, resgatando imagens que, de outra forma, estariam fadadas ao esquecimento ou ao lixo. Seu acervo, que já soma impressionantes 300 mil itens, funciona como uma janela voyeur para o cotidiano do país, com foco especial no Rio de Janeiro, mas abrangendo também outras localidades, desde o final do século XIX até o advento da fotografia digital.

Do Kodachrome à Memória Coletiva

Formado em jornalismo e cinema, Rafael Cosme não iniciou sua trajetória com a intenção de se tornar um colecionador de fotografias. Seu interesse original era estudar a história do Rio de Janeiro através de personagens populares, investigando o dia a dia da República Velha, período entre 1890 e 1930. Frequentava a hemeroteca do Arquivo Nacional, mergulhando em jornais antigos, quando uma visita à feira de antiguidades da Praça Quinze de Novembro mudou seu rumo.

"Fotografia não era algo que me interessava, até que vi uma caixa de Kodachrome de uma mãe e de uma filha na praia de Copacabana", relembra Cosme. "Eram retratos lindíssimos dos anos 1950. Bati o olho e tive a certeza de que seria dessa forma o meu mergulho na história." Por cerca de 10 reais, adquiriu esse conjunto inicial, dando início a uma paixão que transformaria sua vida.

O Olhar Íntimo dos Anônimos

Cosme reflete sobre a diferença fundamental entre as imagens produzidas por fotógrafos consagrados, como Marc Ferrez e Augusto Malta, e os registros feitos por amadores. Enquanto os profissionais tendem a capturar cenas amplas e panorâmicas, a perspectiva dos anônimos é íntima, vivencial. "São cenas de quem estava na praia. Considero isso igualmente monumental", afirma o artista, destacando o valor histórico desses fragmentos do cotidiano.

Seu trabalho de garimpo se expandiu para feiras no Rio e em São Paulo, antiquários, sebos e até leilões. Catadores de lixo também se tornaram fontes valiosas, muitas vezes alertando-o sobre negativos encontrados no descarte. "Antes de eu começar a comprar, era algo tratado como peso morto pelos catadores", comenta Cosme, que já investiu desde poucos reais até mais de mil em um único conjunto, evidenciando o caráter subjetivo do valor atribuído a essas memórias visuais.

Digitalização e Narrativas Saborosas

Em seu ateliê na Avenida Rio Branco, no centro do Rio, Cosme dedica-se diariamente à organização e digitalização do acervo. Utiliza um scanner especializado para negativos e registra meticulosamente todas as informações disponíveis nos envelopes: datas, nomes eventuais, marcas de filme e laboratório. Essa catalogação minuciosa permite que ele agrupe imagens por temas, construindo narrativas ricas sobre aspectos específicos da vida carioca.

Entre as sequências mais marcantes estão cenas de banhistas na praia do Flamengo, os icônicos salva-vidas de Copacabana dos anos 1950 e o Réveillon de 1977, capturado em oito fotos em preto e branco que mostram desde um bolo com velinhas até a celebração na areia. O Carnaval, é claro, ocupa lugar de destaque. "Costumo dizer que não existe um acervo carioca que não tenha fotografia de carnaval. É das certezas da vida", brinca Cosme, explicando que, em uma era de fotografias raras e caras, as famílias priorizavam registrar momentos festivos.

Reencontros Emocionantes nas Redes Sociais

Ao compartilhar parte do acervo em sua conta no Instagram (@villlalobos), Cosme promove reencontros tocantes com o passado. Um caso emblemático ocorreu em 2020, quando publicou uma foto de Carnaval de 1975, mostrando um menino observando a porta-bandeira da Acadêmicos do Salgueiro em frente à Igreja da Candelária. Eduardo Simão Pinto, hoje com 60 anos, diretor cultural da Salgueiro, se deparou com a imagem por acaso e se reconheceu nela.

"Foi uma surpresa", conta Pinto, emocionado. "Reconheci minha mãe ao fundo, meio tapada pelo homem de camisa listrada. Reconheci pelos pés." Iracema Pinto, persistente participante do carnaval da Salgueiro, havia falecido poucos meses antes da descoberta, tornando o resgate uma "bela recordação" de uma época com pouquíssimos registros fotográficos.

Documentos Únicos e a Poesia do Anonimato

O acervo também preserva momentos históricos nacionais, como a sequência de seis imagens capturadas no dia 29 de junho de 1958, quando o Brasil sagrou-se campeão mundial de futebol pela primeira vez. As fotos, tiradas no Edifício Barão da Laguna, no Flamengo, mostram a chuva de papel picado lançada pelas janelas em celebração. "Não tem como medir a importância desse documento", reflete Cosme, destacando a perspectiva única de um anônimo que decidiu fotografar as mãos jogando papeizinhos e, depois, o tapete formado na rua.

Enquanto fotógrafos profissionais cobriam os festejos amplamente, a poesia dessa celebração íntima e anônima é irrepetível. "E aquilo estava indo para o lixo", lamenta o pesquisador, enfatizando a urgência de seu trabalho de resgate.

Um Ofício Híbrido e seu Legado

Hoje, Rafael Cosme vive desse trabalho multifacetado. Comercializa ampliações das fotos, mantendo sempre os negativos e digitalizações em seu acervo, organiza exposições e oferece experiências imersivas no cotidiano antigo do Rio através da plataforma Airbnb. Acredita que há um caminho natural para que sua coleção seja futuramente abrigada por uma instituição museológica, com conversas já em andamento tanto no Brasil quanto no exterior.

Na hora de se definir, Cosme aceita a hibrididade de seu papel: "Pesquisador, historiador, arquivista, artista também… Curador de imagens? Pesquisador, curador. Artista visual." Em texto de sua autoria, descreve o acervo como "um vasto mapeamento do imaginário fotográfico brasileiro", operando entre a arqueologia e a fabulação. Ao digitalizar e reunir essas imagens, propõe novas leituras visuais para o Brasil a partir de fragmentos do cotidiano, deslocando o eixo da memória visual do país para destacar o olhar íntimo, anônimo e muitas vezes despretensioso dos fotógrafos amadores.

"Tudo parte de uma sensibilidade", conclui. "É uma contribuição que eu dou. Eu organizo e entrego. Acho isso muito bonito." Seu trabalho, monumental em escala e significado, prova que cada clique anônimo guarda uma história digna de ser lembrada.