Arqueólogos descobrem peças raras do século 18 em praça histórica de Macapá
Peças raras do século 18 encontradas em praça de Macapá

Descoberta arqueológica revela história colonial de Macapá em praça centenária

Uma equipe de arqueólogos realizou uma descoberta significativa durante as obras de revitalização da Praça Barão do Rio Branco, localizada no centro histórico de Macapá, capital do Amapá. Os pesquisadores encontraram um conjunto de peças raras que datam dos séculos 18 e 19, oferecendo novas perspectivas sobre o cotidiano e a formação social da região durante o período colonial brasileiro.

Objetos importados revelam conexões internacionais

Entre os achados mais notáveis estão cachimbos de caulim importados da Inglaterra e Holanda, cerâmicas indígenas e diversas louças decoradas provenientes de Portugal e Inglaterra. Segundo o arqueólogo Kleber Souza, coordenador do projeto, as marcas de fabricação permitem identificar com precisão a origem desses artefatos, que eram feitos de caulim, uma matéria-prima específica utilizada na época.

"Encontramos um repertório variado de louças importadas que revelam aspectos da vida cotidiana amapaense. São peças que vão desde utensílios domésticos até objetos de valor simbólico, como pingentes e possíveis amuletos de proteção", explicou Souza em entrevista.

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Evidências da sociedade escravista e resistência cultural

Os objetos descobertos não apenas ilustram o comércio internacional da época, mas também revelam traços profundos da escravidão e do contato entre populações negras e indígenas na região. O arqueólogo destacou que a área central de Macapá foi construída sobre um centro histórico anterior, guardando objetos que ajudam a contar a história da antiga Vila de São José, nome inicial da cidade.

"Era uma sociedade escravista, mas ao mesmo tempo, é um grupo de pessoas que estava vindo aqui, forçados por esse processo de escravidão, mas também de resistência e fortalecimento de identidade", afirmou Kleber Souza, enfatizando a complexidade social revelada pelos achados.

Adaptação do projeto para preservação arqueológica

Devido à importância das descobertas, o projeto de obras na praça foi significativamente ajustado. A profundidade das fundações foi reduzida de 1 metro para apenas 20 centímetros, uma medida crucial para preservar a camada arqueológica intacta. Essa decisão demonstra o compromisso com a preservação do patrimônio histórico enquanto se realizam melhorias urbanas.

Além dos objetos móveis, as escavações também revelaram vestígios estruturais importantes, incluindo esteios de madeira de antigas construções da vila colonial. "Havia aqui uma ocupação anterior à Praça Barão. As fotos antigas mostram parte disso, mas encontramos uma quantidade bem maior de vestígios", complementou o coordenador do projeto.

Contexto histórico ampliado por descobertas anteriores

Esta não é a primeira descoberta arqueológica significativa em Macapá. Em 2025, pesquisadores já haviam encontrado uma moeda portuguesa de 20 réis datada de 1775 durante as obras de reforma da antiga Residência Oficial do Governo do Amapá. Naquela ocasião, foram recuperados mais de 30 itens dos séculos 17 e 18, incluindo anéis, ossos de animais e cachimbos de origem holandesa.

Essas descobertas consecutivas reforçam a importância histórica da região central de Macapá, que mesmo antes da presença portuguesa já era habitada por comunidades indígenas. A data da moeda encontrada anteriormente é anterior ao fim das obras da Fortaleza de São José de Macapá e à criação da política cambial brasileira, que só começou em 1808.

Próximos passos e análise científica

Todos os materiais encontrados serão submetidos a análise detalhada por pesquisadores da Universidade Federal do Amapá (Unifap) e registrados pelo Centro de Estudos e Pesquisas Arqueológicas do Amapá (Cepap). A expectativa é que as escavações avancem para outras áreas da praça, potencialmente revelando mais informações sobre a ocupação histórica da região.

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Os pesquisadores acreditam que parte dos objetos pode ter chegado ao Amapá através dos navios regatões, embarcações comuns no período colonial que traziam produtos para venda ou troca. Essas descobertas não apenas enriquecem o entendimento histórico, mas também destacam Macapá como um importante sítio arqueológico brasileiro, com camadas de história ainda por serem completamente exploradas e compreendidas.