Cartunista Walmir Orlandeli retrata metamorfose urbana de Rio Preto em tira especial pelos 174 anos
Orlandeli retrata Rio Preto em tira especial pelos 174 anos da cidade

Cartunista celebra 174 anos de Rio Preto com tira que retrata metamorfose urbana

O ilustrador e cartunista Walmir Orlandeli, premiado com o Jabuti em 2025, criou uma tira especial a convite da TV TEM para celebrar os 174 anos de São José do Rio Preto, completados nesta quinta-feira (19). A obra retrata uma cidade marcada pela impermanência e em constante transformação, capturando a essência da vivência urbana através das memórias do artista.

Memórias que moldam a arte

Diante do desafio de celebrar o aniversário municipal, Orlandeli recorreu às cenas que marcaram sua trajetória desde que chegou de Bebedouro para morar em Rio Preto, em 1980. "A tira tem essa pegada, a ideia é mostrar algo vivo, algo em constante transformação, e a gente fazendo parte disso tudo", explicou ao g1.

Para esta missão comemorativa, o artista escolheu focar na metamorfose urbana de uma cidade que tem vida própria, criando um painel visual que narra histórias e transformações ao longo do tempo.

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Referências históricas e afetivas

A tira especial inclui lugares históricos que já não existem mais, como o Caldeirão do Diabo, apelido do primeiro estádio do América Futebol Clube na avenida América, na Vila Diniz. Este local emblemático chegou a receber um jovem Pelé em partida do Santos contra o time rio-pretense logo após a Copa do Mundo de 1958, atraindo mais de 22 mil pessoas conforme registros históricos.

A primeira casa do América Futebol Clube, bem antes da construção do Teixeirão, acabou vendida e demolida para dar lugar a um supermercado, representando as mudanças físicas e sociais da cidade.

Orlandeli também retrata uma Rio Preto que não era conhecida pelas capivaras da represa, mas por outra espécie: as andorinhas. "A simbologia criada pelas andorinhas era muito forte na cidade. Hoje a gente cita as capivaras, mas naquela época as pessoas olhavam para cima e viam as andorinhas dançando no céu no final da tarde. Era um espetáculo", conta o ilustrador.

A tira faz referência ainda ao lendário Homem-Andorinha, personagem de histórias em quadrinhos lançados em São José do Rio Preto, reforçando a conexão entre a fauna local e a cultura popular.

Formato inovador e narrativa contínua

A tira comemorativa chama atenção pelo formato totalmente horizontal, apresentando a história em um único quadro-sequência sem divisões tradicionais. "É um painel gigante, não tem uma divisão clara de quadros. Uma imagem vai entrando na outra ininterruptamente até terminar. A narrativa é contínua", explica Orlandeli.

Para a TV TEM, o artista aparece narrando com a própria voz enquanto a tira é exibida, criando uma experiência multimídia que combina ilustração e narrativa pessoal.

Influência do interior na produção artística

O cartunista destaca que sua produção artística é fortemente influenciada pela vivência no interior paulista. Em sua arte, Orlandeli percebe que preserva a ancestralidade e a memória dos antepassados, valorizando o folclore, as conversas e a rotina mais lenta característica das cidades do interior.

"Nasci e cresci no interior. Então meu trabalho é do interior, com esse jeito de valorizar o que foi passado pelos pais, do folclore, da conversa, da rotina mais lenta e da facilidade de ir de um lugar para o outro da cidade", afirma o artista.

Memórias afetivas e parcerias importantes

Entre as reminiscências pessoais, Orlandeli lembra com afeto da figueira centenária na pequena praça da rua Silva Jardim, quase no cruzamento com a avenida Alberto Andaló. Era debaixo desta árvore, que existe até hoje, que o menino Orlandeli sentava para ler os gibis que carregava no braço ao sair da escola Pio X.

A visão particular do interior valeu ao ilustrador um convite especial de Maurício de Souza para fazer uma releitura do clássico personagem Chico Bento, da Turma da Mônica. A parceria com o mestre dos quadrinhos brasileiros rendeu três trabalhos: "Arvorada" (2017), "Verdade" (2022) e "Viola", lançado pela editora Panini no ano passado na Bienal do Livro do Rio de Janeiro.

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"Tenho essa veia do Chico Bento. Foi a oportunidade de pegar essas minhas histórias do interior e colocar no personagem. Tem tudo a ver", afirma o cartunista sobre esta colaboração significativa.

Reconhecimento nacional

Em 2025, Orlandeli celebrou a conquista do Prêmio Jabuti, principal premiação literária do país, com a obra "Mais uma história para o velho Smith" na categoria histórias em quadrinhos. Esta foi sua quarta indicação como finalista, consolidando sua trajetória no cenário nacional das artes visuais e narrativas.

A tira comemorativa pelos 174 anos de Rio Preto representa não apenas uma homenagem à cidade, mas também uma reflexão sobre as transformações urbanas, as memórias coletivas e a identidade cultural que se reinventa com o passar do tempo, sempre mantendo viva a essência das raízes interioranas.