Livro desvenda a jornada milenar do labirinto: do Minotauro aos shoppings
Livro reconstrói a saga milenar do labirinto na humanidade

Na trilha do mito: obra reconstrói as origens e transformações do labirinto

Trata-se de uma das criações arquitetônicas mais fascinantes e duradouras da humanidade, uma estrutura que transcendeu milênios para se tornar metáfora da existência humana.

Da lenda à realidade: as raízes mitológicas

Por trás da lendária figura do Minotauro, a besta de corpo humano e cabeça de touro que assombrava Creta, está uma história arquitetônica que remonta a pelo menos 4.000 anos. Não se trata apenas do monstro mitológico, fruto de um adultério animalesco, nem do rei Minos que ordenou seu confinamento, tampouco do herói Teseu que o derrotou com ajuda do fio de Ariadne.

O verdadeiro protagonista desta saga é Dédalo, o engenhoso arquiteto incumbido de construir a prisão para a fera e considerado o arquiteto primordial de nossa civilização. É dessa história que nasce não apenas o termo "dédalo" – sinônimo de labirinto – mas também as origens mitológicas da arte de construir.

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Uma jornada através dos séculos

O livro O Livro dos Labirintos, de Francesco Perrotta-Bosch, recém-publicado pela Editora WMF Martins Fontes, desvenda esta epopeia com pesquisa minuciosa que vai da arqueologia à literatura contemporânea. O autor, arquiteto ítalo-brasileiro, realizou extenso doutorado e viagens pelo mundo, incluindo perambulações por autênticos dédalos na Itália, para compreender como essa ideia se provou uma metáfora longeva para a existência desafiadora.

"O labirinto é a estrutura que me permitiu estudar a gênese e a essência da arquitetura", afirma Perrotta-Bosch, cujo trabalho mostra como essa concepção acompanhou as aspirações e angústias de cada época.

Das moedas cretenses às catedrais medievais

O percurso histórico parte do labirinto de Creta, cuja existência real ainda suscita debates acadêmicos. Fábula ou realidade arquitetônica, o mito prosperou a ponto de se tornar efígie nas moedas correntes da ilha entre 500 a.C. e 67 a.C., representações que estão entre as mais antigas da construção.

Da Grécia antiga, o conceito ganhou o mundo e novos contornos:

  • Influências multicivilizatórias: Há teorias sobre origens egípcias e influências asiáticas que trouxeram as veredas que se bifurcam
  • Adaptação romana: A estrutura foi gravada em objetos e adornou construções palacianas
  • Transformação cristã: Na Idade Média, foi incorporada às igrejas como trajeto de penitência simbólica

Nas catedrais como a de Chartres, na França, labirintos desenhados no piso serviam como simulacro das vias tortuosas das Cruzadas para cristãos que não poderiam enfrentar a viagem real.

Do Renascimento à contemporaneidade

A partir do século XV, o labirinto preservou seu ar sagrado como caminho para "libertar-se das agruras terrenas" enquanto começava a povoar tratados, pinturas e obras literárias. Nos séculos seguintes, materializou-se de modo frutífero nos jardins da nobreza europeia, onde se tornou palco de aventuras amorosas entre sebes e arbustos.

Perrotta-Bosch descobriu durante sua pesquisa que o famoso labirinto da Villa Barbarigo, em Valsanzibio, Itália – objeto central de seu doutorado – foi concluído na segunda metade do século XVIII, não no século XVII como se acreditava, desfazendo um equívoco histórico que se perdeu no próprio labirinto do tempo.

A ironia contemporânea: do sagrado ao controle

Segundo o autor, a história do labirinto pode ser resumida em uma transformação notável: "O dédalo nasceu como fábula pagã; converteu-se em desenho na Antiguidade; adquiriu carga penitencial católica no Medievo; metamorfoseou-se em estruturas verdes para amores proibidos; até, na contemporaneidade, ser absorvido pelo consumo e pelo controle".

Esta última encarnação se manifesta no século XXI através dos zigue-zagues atordoantes de shoppings e aeroportos, uma fina ironia histórica que nos remete novamente a Dédalo – ele mesmo aprisionado em seu projeto, do qual escaparia criando asas, o embrião dos aviões nos quais decolamos hoje após percorrer labirintos de filas, guichês e destinos.

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A obra convida a uma imersão profunda em um dos maiores símbolos da humanidade, mostrando como uma estrutura que gera "experiência da desorientação" paradoxalmente representa a própria arte de botar ordem nas linhas e curvas da natureza e da sociedade.