Livro 'Meu odiado crítico' exalta quatro ícones da crítica musical brasileira
Livro 'Meu odiado crítico' exalta quatro críticos musicais

O livro 'Meu odiado crítico', organizado pelo jornalista Miguel de Almeida e publicado pelas Edições Sesc, chega como uma homenagem a quatro grandes nomes da crítica musical brasileira: Ezequiel Neves, Júlio Medaglia, Sérgio Cabral e Zuza Homem de Mello. A obra reúne uma seleção de textos desses críticos, além de perfis inéditos escritos por Almeida, que contextualizam suas trajetórias e contribuições para o jornalismo cultural.

Um olhar sobre a crítica musical

O título provocativo 'Meu odiado crítico' reflete o tom das críticas mais ferinas publicadas na imprensa nos últimos 70 anos, período que marca o desenvolvimento do jornalismo cultural. Os quatro críticos, segundo Almeida, sempre despertaram mais amores do que ódios, apesar de exercerem uma profissão que exige equilíbrio para sustentar opiniões que podem afrontar egos de artistas e produtores.

Três deles — Ezequiel Neves (1935-2010), Sérgio Cabral (1937-2024) e Zuza Homem de Mello (1933-2020) — já faleceram, permitindo uma análise completa de seus legados. Já o maestro Júlio Medaglia, de 88 anos, ainda está ativo e continua polemizando, como ao afirmar em 2024 que 'qualquer idiota pode fazer funk, rap e pop'.

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A arte da crítica

Na introdução, intitulada 'O artista da crítica', Miguel de Almeida defende que escrever sobre música com raciocínio crítico é uma forma de arte. Ele argumenta que, ao discorrer sobre álbuns e artistas, esses críticos documentaram as transformações da música e da sociedade brasileira. Almeida ressalta o caráter urgente dos textos, muitas vezes escritos sob a influência das emoções provocadas pelas audições.

O organizador também observa o 'arrefecimento' da crítica com o advento da internet e a demolição dos padrões tradicionais do mercado fonográfico. Exemplo disso é a controvérsia recente em torno do álbum 'Ópera Grunkie' (2026) de Marina Lima, que gerou críticas negativas e expôs como as redes sociais podem transformar críticos em alvos de ódio.

Perfis que enriquecem a obra

Os perfis dos quatro críticos são o ponto alto do livro. No perfil 'Mil rosas roubadas', Almeida destaca os exageros de Ezequiel Neves, conhecido por seu deboche e por resenhar um livro inexistente. Neves, que usava o pseudônimo Zeca Jagger, não hesitava em criticar figuras como Caetano Veloso.

Em 'De goleiro a maestro', o perfil de Júlio Medaglia mostra sua formação erudita e sua paixão pela música popular. Medaglia escreveu mais ensaios do que críticas instantâneas, como o antológico 'Balanço da bossa' (1966), reproduzido no livro.

O perfil 'Entidade carioca' foca em Sérgio Cabral, jornalista que se tornou compositor e parceiro de Rildo Hora em sambas como 'Visgo de jaca' (1974). Cabral foi um defensor das tradições do samba e ajudou a dar visibilidade a pioneiros como João da Baiana e Paulo da Portela, cujos perfis biográficos de 1964 estão no livro.

Por fim, 'Amoroso' retrata Zuza Homem de Mello, crítico e pesquisador referência no jazz e na música instrumental. Biógrafo de João Gilberto, Zuza evidenciou a influência de Orlando Silva e a qualidade melódica dos sambas-canção de Lupicínio Rodrigues.

Uma profissão em extinção

O livro 'Meu odiado crítico' chega em um momento em que a crítica musical enfrenta desafios no mundo digital, onde apontar falhas pode gerar ódio nas redes sociais. A obra celebra uma profissão que, apesar dos riscos, é essencial para documentar a história musical e social do Brasil. Como conclui Almeida, amado ou odiado, o crítico de música é uma espécie quase em extinção.

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