Ivanir dos Santos analisa novela da Globo sobre realeza negra e representatividade
Ivanir dos Santos fala sobre novela da Globo e racismo na TV

Ativista e pesquisador analisa representatividade negra na TV Globo

Ivanir dos Santos, babalaô, pesquisador e ativista brasileiro de 71 anos, foi o entrevistado desta semana da coluna GENTE. Com mais de quatro décadas de trabalho em defesa dos direitos humanos, combate ao racismo e intolerância religiosa, o pós-doutor em História Comparada pela UFRJ trouxe uma análise profunda sobre a representatividade negra na televisão brasileira.

Trajetória de luta e conquistas

Sacerdote de Candomblé com o título de babalaô, Ivanir dos Santos acumula importantes postos de comando além da liderança espiritual. Professor e interlocutor da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa da UFRJ, ele foi um dos idealizadores da série documental Resistência Negra (Globoplay, 2023) e participou de diversos festivais e debates culturais em 2026.

Análise da representatividade na TV

Em entrevista ao programa semanal da coluna GENTE, disponível no canal da VEJA no YouTube e em diversas plataformas de streaming, Ivanir analisou os avanços e desafios da representação negra na TV Globo. A conversa ganhou especial relevância com a estreia da novela A Nobreza do Amor, que traz uma história sobre realeza africana.

Contexto histórico e mudanças

O ativista relembrou o Teatro Experimental Negro, que criticava a falta de protagonismo negro no teatro nos anos 1960. "Era garoto, aluno da FUNABEN, mas assistia à novela Cabana do Pai Tomás. O protagonista era o Sérgio Cardoso, um branco pintado de preto", contou Ivanir, destacando que essa prática gerou protestos liderados por atores negros como Milton Gonçalves e Léa Garcia.

Sobre o cenário atual, ele afirmou: "Hoje, o cenário é diferente. Há uma sequência de novelas que tem o protagonista negro. Mesmo assim, com conflitos no final das tramas". Ivanir destacou a importância da ascensão de diretores negros e mencionou profissionais como Elísio Lopes Jr. e Lázaro Ramos como exemplos de pessoas comprometidas com representações dignas.

Importância da novela sobre realeza africana

Sobre A Nobreza do Amor, Ivanir expressou esperança: "Já vamos novela falar da Itália, Espanha, Portugal, mas não fala da África. Então esta é a primeira e olha que está falando de um grupo étnico na África". Ele destacou que a novela tem narrativa voltada para descendência Yorubá, representando um avanço significativo.

Políticas afirmativas e meritocracia

O pesquisador defendeu a importância das cotas: "A cota, querendo ou não, trouxe uma ascensão do grupo negro na sociedade. E querendo ou não, uma base embrionária para ampliação de uma classe média negra". Ele argumentou que hoje existe uma massa crítica mais bem preparada para enfrentar o racismo estrutural do Brasil.

Sobre meritocracia, Ivanir, que é filho de prostituta e foi criado no Serviço de Assistência ao Menor, refletiu: "Mérito não é privilégio. As pessoas confundem privilégio com mérito, porque a sociedade criou privilégios. Até hoje é uma sociedade de privilégios, e a questão racial está envolvida nisso".

Reflexão sobre racismo global

Citando o caso de Barack e Michelle Obama, Ivanir analisou: "O racismo praticado por Trump não é diferente se você olhar o mundo como um todo. Você vê a repercussão maior, porque é um ex-presidente e uma ex-primeira-dama, porque mostra que o negro, independentemente do lugar que chegue, continua sendo negro numa sociedade com valores eurocêntricos".

O programa semanal da coluna GENTE vai ao ar toda segunda-feira no canal da VEJA no YouTube, no streaming VEJA+, na TV Samsung Plus e na versão podcast no Spotify.