Aos 82 anos, Altair Pinheiro lança primeiro livro de poesias no Rio de Janeiro
Um idoso de 82 anos anunciou o lançamento do seu primeiro livro de poemas, intitulado Poesias Agudas, no Rio de Janeiro, neste sábado (21), data em que se comemora o Dia Mundial da Poesia. A obra reúne textos escritos ao longo de décadas e que refletem sua trajetória pessoal, suas reflexões políticas e sua sensibilidade diante da vida cotidiana.
Trajetória marcada pela escrita desde a infância
Altair Pinheiro carrega desde a infância uma profunda relação com a arte, a leitura e a observação do mundo. Crescido em um ambiente familiar marcado pela cultura e pelo estudo – com pai e tio músicos, uma irmã artista plástica e irmãos ligados às áreas da biologia e da contabilidade – Altair convivia com livros, jornais e música dentro de casa. Ainda assim, sentia dificuldade de dialogar. Foi então que encontrou na escrita um caminho de expressão.
Entre os 9 e 10 anos de idade, começou a registrar seus pensamentos utilizando o papel que envolvia as antigas bisnagas de pão. Com pedaços de madeira, improvisava pequenos blocos de anotação e escrevia sobre suas inquietações e questionamentos. Já na adolescência, por volta dos 14 ou 15 anos, seus textos começaram a ganhar forma poética, carregando um tom crítico e questionador que permanece presente em suas obras.
“Eu comecei a escrever muito cedo, com 9 ou 10 anos. Era uma forma de colocar para fora aquilo que eu não conseguia dizer”, conta Altair Pinheiro.
Superação e cuidado em saúde mental
A trajetória do poeta também atravessa momentos de sofrimento psíquico e experiências com o antigo modelo de internação psiquiátrica. Ao longo da vida, ele passou por diferentes instituições, acompanhando de perto as transformações promovidas pela reforma psiquiátrica brasileira. Hoje, encontra no Instituto Municipal Nise da Silveira, no Rio de Janeiro, um espaço de cuidado, cultura e convivência.
Desde 2023, Altair está envolvido na produção de textos, em oficinas e no acompanhamento de visitantes no Espaço Travessia. Também é ativo na oficina de escrita e expressão Entre Linhas e do programa de rádio Espaço da Diferença, que acontece na Rádio Revolução, as duas atividades são coordenadas pelo CECO Trilhos do Engenho.
Para Altair, o cuidado em saúde mental vai muito além do tratamento com medicamentos. Em sua visão, ele precisa incluir cultura, arte, escuta e oportunidades de expressão.
“O cuidado mental não vem só do remédio. Vem também da cultura, da arte e da possibilidade de falar e ser escutado”, afirma.
Sensibilidade poética e conexão com a natureza
A relação de Altair com a natureza também marcou profundamente sua escrita. Criado em um terreno amplo, cercado por árvores, pássaros e plantas, desenvolveu um olhar atento para os pequenos detalhes da vida cotidiana. Para ele, a poesia nasce justamente dessa capacidade de observar: o movimento da brisa nas folhas, o orvalho sobre as pétalas das flores ou o canto dos pássaros.
“Eu não vou ao jardim só para olhar as coisas. Eu vou para ver o bailar da brisa nas folhas, o orvalho nas flores. As pessoas não param para perceber esses detalhes”, explica.
Essa sensibilidade se transformou em muitos de seus versos dedicados à fauna, à flora e às relações humanas. Um dos exemplos mais marcantes de sua obra é o poema O Canto do Sabiá, inspirado nos pássaros que ouvia cantar enquanto morava em Juiz de Fora. O texto foi utilizado pelo Centro de Referência de Direitos Humanos da cidade na criação de um espetáculo.
Reconhecimento e lançamento do livro
A montagem, musicada e baseada em seus poemas, foi apresentada em 2013 no Fórum Mundial de Direitos Humanos, em Brasília, levando a poesia de Altair para um público internacional. Poesias Agudas será publicado no primeiro semestre desse ano, pelo Coletivo Literário Macondo Casa Editorial e Letra Miúda, com ilustrações da artista Amanda Orbel, e marca a consolidação de uma história em que a escrita sempre foi instrumento de reflexão, resistência e sensibilidade.
“Minha terapeuta viu um monte de rascunhos espalhados e perguntou se podia usar aqueles textos. Eles montaram um espetáculo musicado e levaram para o fórum. Foi um sucesso”, lembra Altair.
Diariamente, Altair exercita sua veia artística escrevendo textos, apresentando história e promovendo debates, demonstrando que a criatividade e a expressão poética não têm idade.



