Ian McEwan lidera cli-fi com alerta sobre colapso ambiental em novo romance
Ian McEwan reforça cli-fi com alerta sobre colapso ambiental

Ian McEwan e a ascensão da cli-fi: ficção climática sobre apocalipses possíveis

No novo livro do renomado autor inglês Ian McEwan, "O que Podemos Saber", o leitor é transportado para o ano de 2119, em um mundo que sobreviveu a uma hecatombe climática agravada por guerras nucleares e tsunâmis. O planeta tornou-se um arquipélago de picos montanhosos, onde antes existiam países. Londres, Paris, Amsterdã e Lisboa estão submersas; os Estados Unidos são um território tomado por guerras civis; e a Nigéria emerge como potência hegemônica, detentora de tecnologias de ponta.

O protagonista, professor Thomas Metcalfe, especialista no período literário de 1990 a 2030 — a última era antes da "grande inundação" —, parte em busca de um poema perdido, escrito em 2014 por Francis Blundy, um poeta brilhante e detestável, além de negacionista climático. O poema foi lido uma única vez e nunca mais encontrado, e sua fama cresceu na medida de sua ausência, movendo toda a trama.

McEwan foge da armadilha de uma distopia banal, com cenários apocalípticos e heróis resistentes. Em vez disso, ele usa fatos do presente — aquecimento global, guerras, pandemias — e os projeta até seu desfecho lógico, criando uma obra perturbadora que questiona a passividade humana diante dos desastres.

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O que é cli-fi?

Cli-fi, abreviação de climate fiction (ficção climática), é um gênero que ganhou nome próprio nas últimas duas décadas, com a expressão cunhada por volta de 2007 pelo jornalista americano Daniel Bloom. Embora não seja uma novidade — Octavia Butler já escrevia sobre colapso ambiental nos anos 1990, Ursula K. Le Guin nos anos 1970, e no Brasil o visionário "Não Verás País Nenhum", de Ignácio de Loyola Brandão, imaginava uma Amazônia extinta em 1981 —, a ficção climática literária contemporânea ganhou musculatura e urgência próprias, com o reforço de autores como McEwan, membro da chamada "alta literatura".

Antes relegada ao subgênero da ficção especulativa, muitas vezes associada a imagens exageradas de catástrofes como as do filme O Dia Depois de Amanhã (2004), a cli-fi vem derrubando preconceitos ao perder a pecha de premonitória e se revelar cotidiana. "O que aconteceu no Rio Grande do Sul, por exemplo, é coisa de livro, de filme", afirma o pesquisador da USP George Amaral, autor da tese A Forma do Romance no Antropoceno. "Essa tendência literária demonstra que existe uma mudança na nossa estrutura de pensamento sobre o tema."

Obras brasileiras e internacionais no gênero

No Brasil, proliferam títulos do filão, como "Água Turva", da gaúcha Morgana Kretzmann; "Contra Fogo", do paulista Pablo Casella; e "O Deus das Avencas", do paulistano Daniel Galera — todos em clima de thriller e com a natureza brasileira como ambientação. No exterior, o americano Richard Powers foi laureado com o Pulitzer por "A Trama das Árvores", previsto para se tornar uma série na Netflix. A inglesa Megan Hunter viu sua distopia "O Fim de Onde Começamos", sobre uma inundação que toma a Inglaterra, virar filme com estrelas de Hollywood em 2023.

A literatura como testemunha

McEwan, autor erudito e deliberadamente sofisticado, usa a catástrofe climática não apenas como cenário, mas como pergunta filosófica central: para que serve a literatura quando o mundo desmorona? Seu protagonista é um professor obcecado por um poema — não por vacinas, energia limpa ou engenharia climática. Um poema. Seus alunos de 2119, crescidos entre as ruínas do Antropoceno, não têm paciência para entender o que perderam. "O passado era povoado por idiotas", pensam sobre nossa época. McEwan até lhes dá razão, mas reserva à literatura o papel incômodo de testemunha dos tempos em que os idiotas ainda tinham escolha e, aparentemente, preferiram não usá-la.

"Em meio aos desastres", escreve o narrador, "a literatura mundial produziu seus mais belos lamentos, uma nostalgia maravilhosa, uma fúria eloquente". A frase, linda e melancólica, serve de consolo aos que restaram — e de escada para a ironia do autor atingir seu ponto mais agudo. O planeta pede socorro, e o alerta vem agora na forma de literatura de primeira qualidade.

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