Pescador descobre sítio arqueológico com desenhos rupestres de 3 mil anos em Roraima
Desenhos rupestres de 3 mil anos achados por pescador em RR

Pescador transforma viagem de caiaque em descoberta arqueológica histórica em Roraima

O que começou como uma simples expedição de caiaque pelo rio Jatapu, no município de Caroebe, no Sul de Roraima, se transformou em uma verdadeira viagem no tempo para o pescador esportivo Marcell Reis, de 33 anos. Durante nove dias de aventura em janeiro, ele e sua esposa percorreram áreas isoladas do rio e se depararam com uma descoberta extraordinária: ao menos 30 desenhos rupestres gravados em pedras ao longo das margens do curso d'água.

Registros milenares espalhados por quilômetros de rio

Os desenhos começaram a aparecer após cerca de 70 quilômetros de descida no rio, partindo de Caroebe. Segundo Marcell, que também é bombeiro militar, as gravuras estavam distribuídas em diferentes trechos, criando um verdadeiro caminho arqueológico ao longo do Jatapu.

"Você encontra um ponto com desenhos, sobe uns 20 quilômetros e encontra outro, depois mais uns 30 quilômetros, tem mais. São muitos desenhos, vi cerca de sete desenhos em um local só, mas em outros pontos encontrei mais de 20", relatou o pescador, destacando que a experiência foi "como se fosse uma viagem no tempo".

O bombeiro explicou que os registros não são facilmente perceptíveis para quem passa rapidamente pelo rio. "Tem muita pedra. É preciso olhar com atenção, procurar mesmo. Não é algo óbvio", afirmou, ressaltando que a descoberta foi um dos momentos mais marcantes de suas viagens.

Análise especializada sugere antiguidade de 3 mil anos antes de Cristo

O g1 consultou Francisco de Paula Brito, professor de história da Universidade Federal de Roraima (UFRR) e mestre em arqueologia pela Universidade de Pernambuco (UPE), para analisar as imagens registradas por Marcell. O pesquisador identificou diversos estilos de desenhos diferentes, o que pode indicar que vários povos passaram pela região ao longo dos milênios.

Entre os estilos identificados está o chamado Aishalton, que apresenta figuras de animais, plantas e humanos, comum em povos milenares. "A partir da análise dos traços, da técnica utilizada e da comparação com outros registros já estudados na Amazônia e na região das Guianas, é possível estimar que essas gravuras tenham sido feitas há cerca de 3 mil anos antes de Cristo", afirmou Brito.

O especialista também identificou mais um estilo rupestre: "Um deles está associado à tradição amazônica, comum em regiões como o rio Negro. Outro apresenta características semelhantes a registros encontrados na Guiana".

Possível primeiro sítio arqueológico registrado em Caroebe

O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) informou que os desenhos encontrados por Marcell não fazem parte de nenhum sítio arqueológico registrado pelo órgão. Esta informação levanta a possibilidade de que esta seja a primeira descoberta arqueológica oficialmente identificada no município de Caroebe.

Segundo o pesquisador Francisco Brito, as gravuras provavelmente foram feitas por populações ancestrais dos povos indígenas que historicamente ocuparam a região, como os Wai Wai. "Esses povos se deslocavam pelos rios, trocavam objetos e mantinham contato entre áreas que hoje fazem parte do Brasil e das Guianas. Os desenhos refletem essa ocupação antiga e essa circulação milenar", explicou.

Algumas das pedras apresentam inclusive polidores, marcas usadas por povos antigos para afiar ou polir instrumentos de pedra, como machadinhas. "É possível ver os polidores na parte superior da rocha e as gravuras na lateral, o que torna o sítio ainda mais interessante do ponto de vista arqueológico", destacou o especialista.

Expedição desafiadora em ambiente selvagem

Marcell descreveu a aventura como desafiadora e recompensadora. A floresta amazônica fechada, as corredeiras do rio e os obstáculos naturais marcaram a expedição, que também apresentou riscos como arraias, cobras e peixes-elétricos.

"É um ambiente selvagem. É uma expedição pesada mesmo. Mas é incrível. É isso que eu gosto de fazer", contou o pescador, acrescentando que a sensação de encontrar os desenhos foi difícil de explicar. "Você começa a pensar quem passou por ali, quando foi, o que aquilo significava. A gente percebe que ainda falta muita informação sobre esses registros, e isso deixa tudo ainda mais impressionante".

Proteção legal e orientações para preservação

O Iphan reforçou que todo vestígio arqueológico é automaticamente protegido por lei, mesmo que ainda não esteja cadastrado oficialmente. O instituto orienta que qualquer achado arqueológico deve ser:

  1. Fotografado sem flash
  2. Mantido no local original
  3. Comunicado ao órgão com o máximo de informações sobre a localização

"O mais importante é não mexer em nada. É registrar, comunicar e deixar que isso seja estudado. Esses desenhos fazem parte da história de todo mundo e é muito legal de conhecer", concluiu Marcell, que já compartilhou imagens da descoberta nas redes sociais, onde um vídeo mostrando um desenho que aparenta ser um sol já acumula mais de mil compartilhamentos.

A descoberta reforça a riqueza arqueológica ainda pouco explorada da Amazônia e destaca a importância de expedições responsáveis que podem contribuir para o conhecimento histórico da região.