Catira: a dança caipira que atravessa séculos e mantém viva a tradição cultural
Catira: dança caipira mantém tradição cultural viva

Catira: a dança que ecoa a história e a identidade caipira

O som da viola marca o compasso, enquanto duas fileiras se formam. Palmas sincronizadas e um sapateado forte no chão criam uma batida que parece contar uma história antiga — e de fato conta. A catira, também conhecida como cateretê, atravessa séculos e se consolida como um dos símbolos mais reconhecidos da cultura caipira no interior do Brasil. Mais do que uma simples dança, ela é uma memória viva, uma expressão de raízes profundas que resistem ao tempo.

Origens pluriculturais: da raiz indígena à viola portuguesa

Praticada desde o período colonial brasileiro, a catira possui uma origem pluricultural. Segundo o antropólogo e historiador Túlio Fernando, embora seja fortemente associada ao universo caipira, sua principal proveniência é indígena. Entre os povos originários, era praticada com diferentes ritmos e movimentações corporais. Com a chegada dos jesuítas, passou a ser utilizada como instrumento de catequização. A viola, introduzida pelos portugueses, consolidou a estrutura que conhecemos hoje: duas fileiras, palmas ritmadas, sapateado marcado e canto acompanhando. Ainda assim, o ritmo e os passos variam conforme a região, adaptando-se às particularidades locais.

"Ela é raiz, é identidade": o significado emocional da catira

Para Suzzi Nunes, do Grupo de Catira Nunes, a manifestação ultrapassa qualquer definição técnica. "A catira, para nós, é muito mais do que uma dança. Ela é raiz, é identidade, é herança viva, herdada dos nossos antepassados. Bate forte no peito e emociona o coração", afirma. Ela destaca que cada apresentação carrega memória e respeito, com cada batida representando saudade, olhar atencioso e gratidão por honrar essa tradição familiar. No entanto, Suzzi faz um alerta preocupante: o interesse dos jovens tem diminuído significativamente. Mesmo em famílias tradicionalmente ligadas à Folia de Reis, poucos descendentes seguem na dança. Foi essa preocupação que motivou a criação de um grupo feminino na família, reforçando o protagonismo das mulheres na preservação da catira em Goiás.

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"Marco da tradição goiana": a ligação com a Folia de Reis

Joaquim de Sousa Viana, que aprendeu a dançar ainda na infância em São Francisco de Goiás, começou aos cinco anos seguindo os passos do pai. Para ele, a catira está diretamente ligada à Folia de Reis, manifestação que sua família realiza todos os anos entre 1º e 6 de janeiro. "Na nossa folia, o catira é o marco da tradição. É a cantoria e o catira", explica. Mesmo após sofrer um acidente que o impediu de continuar dançando, ele segue participando da parte musical da folia e ajudando na formação dos mais novos, treinando meninos para evitar que a tradição se perca. Quando convidado a definir a catira em uma palavra, ele não hesita: "Marco da tradição goiana".

Felicidade e continuidade: grupos familiares mantêm a tradição

No Grupo de Catira João Nogueira, de Bela Vista de Goiás, a tradição começou na década de 1970 e hoje é mantida por filhos e netos. João José de Oliveira, que está à frente do grupo há 40 anos, aprendeu ainda criança dentro de casa. "Quem ensinou para a gente foram nossos pais, tios e avós. É uma dança que vem da família, do nosso passado", relata. Ele destaca que o primeiro contato da maioria dos integrantes com a catira aconteceu dentro da Folia de Reis, onde a dança se firmou e se espalhou. O grupo mantém formações masculinas e femininas, preservando a essência original apesar das mudanças trazidas pela internet e contato com outros grupos. Para João, a catira representa uma palavra: "Felicidade".

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Entre fé e cultura popular: a catira como expressão folclórica

Izabel Signoreli, historiadora, folclorista e Presidente da Comissão Goiana de Folclore, explica que a catira é uma dança folclórica brasileira, típica do interior paulista, mineiro, goiano e mato-grossense. "É uma tradição repassada de pais para filhos, acompanhada pela viola, uma expressão da cultura sertaneja", afirma. Como grande parte das manifestações populares brasileiras, a catira reúne influências indígenas e portuguesas. Tradicionalmente executada por homens, hoje também conta com grupos femininos, embora a prática esteja mais concentrada dentro das Folias de Reis e menos presente fora desse contexto.

Tradição que resiste: a batida que ensina respeito e pertencimento

Em comum entre todos os entrevistados está a ideia de continuidade. A catira é dança, é fé, é família. É a batida que ensina respeito, religiosidade e pertencimento. Para muitos, não é apenas uma performance: é um legado. Enquanto houver alguém disposto a bater palmas e marcar o sapateado no chão, a cultura caipira seguirá ecoando, mantendo viva uma tradição que define identidades e conecta gerações no interior do Brasil.