A cadeira monobloco: ícone global do design que divide opiniões e transcende fronteiras
Cadeira monobloco: ícone global do design que divide opiniões

A cadeira monobloco: ícone global do design que divide opiniões e transcende fronteiras

Ricky Martin apareceu sentado em uma cadeira de plástico durante o show do intervalo de Bad Bunny no último Super Bowl, nos Estados Unidos. Esta imagem, capturada por Kevin Mazur para a Roc Nation, ilustra perfeitamente a onipresença deste objeto que, embora muitas vezes ignorado, faz parte do cotidiano de bilhões de pessoas ao redor do planeta.

Você pode não saber o nome dela, mas provavelmente já se sentou em uma. As lembranças associadas são diversas: churrascos no quintal dos amigos, onde sempre cabe mais um graças às cadeiras empilhadas no canto; ou aquela cerveja gelada no bar da praia, com os pés enterrados na areia enquanto se sente o calor do plástico contra a pele. A cadeira monobloco — aquela humilde cadeira de plástico, normalmente branca — é o móvel mais utilizado do mundo, um objeto tão popular que transcendeu todas as fronteiras geográficas e culturais.

Um ícone que desperta paixões e críticas

Barata, versátil, leve e resistente às intempéries, a cadeira monobloco é fabricada com uma única peça de plástico, geralmente polipropileno, e se tornou um ícone do projeto industrial. No entanto, ela desperta sentimentos contraditórios. Os detratores afirmam que sua onipresença a transformou em um símbolo de vulgaridade e mau gosto, um assassino da estética e um exemplo da cultura do descartável, com graves consequências ambientais. Tanto que a cadeira chegou a ser proibida por dez anos nos espaços públicos de Basileia, na Suíça, por supostamente prejudicar a estética urbana.

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Já os defensores destacam seu design democrático e suas qualidades práticas: pode ser empilhada, pesa pouco, é extremamente acessível e possui um formato ergonômico que garante conforto. A monobloco ocupa lugar de destaque na capa do premiado álbum Debí Tirar Más Fotos, do artista porto-riquenho Bad Bunny, reforçando o laço sentimental que une tantas pessoas a este objeto e às memórias que ele evoca.

A evolução histórica de uma revolução industrial

A fabricação da cadeira monobloco envolve injetar uma resina de plástico líquida em um molde a cerca de 230°C, que é resfriada e endurece rapidamente. "A monobloco é a combinação do desejo tão arraigado entre os designers de criar a cadeira perfeita, fabricada de forma industrial", explica Paola Antonelli, diretora do Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA).

Os primeiros experimentos com cadeiras de uma única peça começaram na década de 1920, utilizando chapas metálicas ou madeira laminada. Porém, foi em 1946 que o arquiteto canadense Douglas Colborne Simpson, em colaboração com o engenheiro James Donahue, criou um protótipo de cadeira empilhável com uma só peça de plástico, considerada a primeira monobloco da história, embora nunca tenha saído do estágio prototípico.

Os avanços com termoplásticos nos anos seguintes permitiram a industrialização do processo. Produtos como a cadeira Panton (1958-1967) de Verner Panton, a Bofinger (1964-1967) de Helmut Bätzner, a Selene (1961-1968) de Vico Magistretti e a Universale (1965) de Joe Colombo se tornaram símbolos do design industrial e objetos de desejo para colecionadores.

Da elite ao consumo de massa

Mas como passamos dessas peças sofisticadas para a humilde cadeira de plástico das praias? A fabricação continuava cara até que, em 1972, o engenheiro francês Henry Massonet criou a Fauteuil 300, considerada o arquétipo da cadeira de plástico barata. Massonet reduziu o ciclo de fabricação para apenas dois minutos, mas sua invenção não foi patenteada, permitindo que diversas empresas copiassem o processo.

Na década de 1980, o grupo francês Grosfillex conseguiu fabricar sua cadeira de jardim de resina a um custo tão baixo que pôde lançá-la no mercado a preços extremamente competitivos, multiplicando exponencialmente sua popularidade e transformando a monobloco em um verdadeiro produto de massa.

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Um objeto paradoxal no mundo contemporâneo

Dê uma olhada nos seus álbuns de fotos: a cadeira monobloco certamente aparece em diversas imagens, seja na sua casa, seja em viagens exóticas. Ela está presente na medina de Rabat, no Marrocos; em reuniões políticas em Marselha, França; em restaurantes nas ruas de Pequim, China; revestida de tecido em casamentos em Buenos Aires, Argentina; ou nas ruas de pequenas cidades mediterrâneas, onde vizinhas a levam para conversar ao ar livre.

Calcula-se que a fabricação da cadeira monobloco custe cerca de US$ 3 (aproximadamente R$ 16), sendo vendida em muitos lugares por apenas US$ 10 (cerca de R$ 52). Este baixo custo a torna onipresente, mas também revela um paradoxo: em sociedades ricas, ela é frequentemente descartada quando estraga, enquanto em comunidades mais humildes e zonas rurais de muitos países, é consertada com arame, talas ou adaptações criativas.

"Em alguns países, ela é produzida em massa e descartada rapidamente, enquanto, em outros, é valorizada e reparada, o que reflete diferentes percepções do seu valor", observa Paola Antonelli. Para ela, "sua natureza multifacética simboliza a complexa cultura do consumo no mundo de hoje".

Ethan Zuckerman, ex-diretor do centro de meios de comunicação cívicos do MIT, adverte em seu estudo Those White Plastic Chairs – The Monobloc and the Context-Free Object que desprezar objetos como a monobloco é um risco, pois "eles alcançaram uma fama mundial com que poucos seres humanos sequer sonharam". A humilde cadeira de plástico, portanto, não é apenas um assento, mas um espelho das contradições e conexões da sociedade global.