Artista Catarina DeeJah modifica sátira após notificação de casa de apostas
Artista modifica sátira após notificação de casa de apostas

Artista visual recebe notificação extrajudicial por sátira com marca de casa de apostas

A plataforma de apostas online Esportes da Sorte notificou extrajudicialmente a artista visual Catarina Lins de Aragão, conhecida como Catarina DeeJah, pelo uso da tipologia da marca da empresa em uma sátira intitulada "Manifesto Bet, a Feia: Desbanque a Banca". Após a notificação, a artista modificou a logo da peça, seguindo orientação de sua assessoria jurídica.

Campanha crítica e poluição visual em Olinda

O site de jogos é um dos patrocinadores do carnaval de Olinda, e a campanha da artista faz referência à poluição visual causada pela grande quantidade de anúncios da empresa em diversos pontos do Sítio Histórico da cidade. Catarina DeeJah explicou que a iniciativa está alinhada com o espírito do carnaval, da paródia e da brincadeira, mas também com uma crítica séria.

"Acho que tem muito a ver com essa questão que eu levantei, com o espírito do carnaval, da paródia, da brincadeira. Fiz um estudo sobre as bets do Brasil e o que me pega muito aqui, em Olinda, é a poluição visual e ambiental, porque eles fazem uma propaganda massiva, uma empresa que, a meu ver, tem um peso muito negativo", disse a artista.

Detalhes do manifesto artístico

O manifesto artístico consiste em uma camisa que leva o nome da campanha na frente. Na parte de trás, havia originalmente a frase: "O lucro é deles, o azar é seu. Desbanque a banca". A ideia se baseou no Guia de Cuidado para Pessoas com Problemas Relacionados a Jogos de Apostas, lançado em janeiro pelo Ministério da Saúde, que orienta sobre a importância do acompanhamento e tratamento de pessoas com transtornos ligados a vício em jogos no Sistema Único de Saúde (SUS).

"Com o manifesto, eu tentei envolver a sociedade civil para que isso fosse uma ação em nível nacional, para que a gente pudesse devolver ao povo os brindes que eles dão, mas com algodão, com algo mais sustentável, e trazer um Qr Code, no qual as pessoas pudessem se informar sobre o perigo do vício em jogos", falou Catarina.

Posicionamento da Esportes da Sorte

Procurada, a Esportes da Sorte informou, por meio de nota, que a notificação extrajudicial enviada à artista estava relacionada ao uso não autorizado da marca e identidade visual da empresa, e não à manifestação artística em si.

"O uso comercial indevido de marcas de apostas por terceiros, além de violar direitos de propriedade intelectual, pode gerar exposição regulatória à empresa, razão pela qual o posicionamento foi adotado. Após a notificação, a própria artista informou publicamente a retomada das vendas com tipografia original, evidenciando o entendimento da questão", disse a casa de apostas.

Conflito entre propriedade industrial e liberdade de expressão

O caso envolve um conflito entre a propriedade industrial e a liberdade de expressão. A advogada Maira Uchôa Moura, especialista em Propriedade Intelectual e presidente da Comissão de Propriedade Intelectual da OAB-PE, explicou que a Esportes da Sorte baseou a queixa no registro de marcas mistas, que protegem o elemento verbal aliado a uma grafia e logotipo específicos.

"Diferente da marca nominativa, a modalidade mista garante exclusividade sobre o conjunto visual registrado, visando evitar a reprodução ou imitação que possa induzir o consumidor ao erro", disse.

A especialista também detalhou que essa discussão alcança o trade dress (conjunto-imagem), que abrange a identidade visual global, como a combinação de cores e a estilização que remete à origem do serviço. "Embora o trade dress não possua previsão expressa na legislação brasileira, ele recebe ampla proteção em nossos tribunais sob a égide da repressão à concorrência desleal", afirmou.

Para a presidente da Comissão, "a descaracterização da tipografia pode afastar a violação direta à marca mista e ao próprio trade dress, por reduzir o risco de confusão". A advogada explicou, ainda, que a paródia e a sátira "são direitos fundamentais de liberdade de expressão, sendo permitidas quando possuem caráter crítico ou humorístico".

Reação da artista e contexto social

Após receber a notificação extrajudicial, Catarina DeeJah falou sobre o caso nas redes sociais, defendendo que a arte seja um instrumento de questionar e mover a sociedade.

"Eu tenho um trabalho independente da 'Bet, a Feia'. Eu não estou lucrando com isso. Não queria nem lucrar com isso. O lucro, para mim, é ver uma sociedade menos doente, menos hipócrita. Eu moro no foco do carnaval. São meses exposta a isso. A gente vai sendo cerceado do ir e vir, a luz que é cortada, a água sendo racionada [...]. A gente está aqui o ano inteiro e sabe o impacto que o carnaval causa. E o carnaval atrelado a esse tipo de patrocínio", declarou.

O g1 tentou contato com a prefeitura de Olinda, mas, até a última atualização desta reportagem, não obteve resposta. A situação ilustra um debate complexo que envolve direitos autorais, expressão artística e impactos sociais de patrocínios corporativos em eventos culturais tradicionais.