Grafiteiros de São José do Rio Preto mostram evolução da arte urbana para além dos muros
Arte urbana em Rio Preto vai de muros a objetos do cotidiano

Grafiteiros de São José do Rio Preto mostram evolução da arte urbana para além dos muros

A arte urbana em São José do Rio Preto, no interior de São Paulo, transcendeu há muito tempo os limites dos muros tradicionais. O que começou como intervenção de rua transformou-se em linguagem versátil que agora decora telas, carros, geladeiras, malas personalizadas e até pranchas de surfe. Mais do que expressão artística, o grafite tornou-se fonte de renda para diversos artistas da cidade, marcando uma trajetória de evolução e reconhecimento.

Do preconceito à profissionalização

Wanderson José Sereni, conhecido como Pecks, é um veterano com mais de três décadas de experiência. Ele abandonou a marcenaria em 1994 para dedicar-se exclusivamente ao grafite, enfrentando preconceitos e abordagens policiais frequentes na época. "Hoje pago as contas pintando muro e outras superfícies", afirma o artista, que já personalizou desde eletrodomésticos até fachadas de escolas e caixas d'água.

Entre seus trabalhos mais marcantes está o mural do Clube dos Amigos dos Deficientes (CAD) no Jardim Maracanã, realizado em parceria com Edgar Andreatta da crew Arte Sem Limites. A obra recebeu uma releitura em outubro de 2025, incorporando referências aos paratletas e à cultura negra. "Ser grafiteiro hoje no interior de SP é mamão-com-açúcar, é mais fácil", compara Pecks, destacando como a aceitação pública cresceu com o reconhecimento do grafite como street art ou muralismo.

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A conexão com as origens internacionais

William Cardoso, que assina como Will Insano, prefere o termo "graffiti" em sua grafia original italiana, mantendo vínculo com as raízes estrangeiras do movimento. Formado em design gráfico, ele reproduziu em São Paulo a experiência de pintar trens, gesto rebelde que marcou o surgimento da arte nas comunidades negras e latinas de Nova York nos anos 1970.

"A experiência de pintar trens foi algo único, porque o 'graffiti' começou nos trens de Nova York. Foi assim que me conectei à minha arte de verdade", explica o artista, que vive exclusivamente da arte desde 2008. Will já levou seus trabalhos para Portugal, onde residiu por dois anos, e hoje diversifica sua produção entre muros, telas, carros e até suportes de madeira para sapatos.

Ampliação de horizontes e públicos

A versatilidade dos suportes ampliou significativamente o alcance da arte urbana. Obras que antes dependiam da circulação pelas ruas agora adentram residências, empresas e acompanham as pessoas em objetos do cotidiano. Edson Ramos, outro veterano rio-pretense, observa essa transformação com entusiasmo: "Tem dentro do shopping, tem grafite no ônibus. Para quem começou lá atrás, é muito bom ver a cena desse jeito".

Além de pintar fachadas comerciais, Ramos vende telas para clientes internacionais, demonstrando como o grafite conquistou status de commodity artística. Will Insano complementa essa visão: "Cada dia existe uma superfície diferente. O 'graffiti' se encaixa em qualquer ambiente".

Projetos culturais e formação de novas gerações

A evolução do grafite em Rio Preto não se limita à expansão técnica e comercial. Will Insano atualmente dedica-se a aulas para crianças e jovens como instrutor em oficinas de formação, além de participar ativamente de projetos culturais com demonstrações ao vivo de grafitagem. Sua próxima apresentação está marcada para o evento Reggae na Casa, no dia 18 de abril.

Essa transmissão de conhecimento às novas gerações consolida a arte urbana como patrimônio cultural dinâmico, enquanto a diversificação de suportes e a profissionalização dos artistas garantem sua sustentabilidade econômica. O que era marginal transformou-se em expressão artística legitimada, capaz de dialogar com diferentes contextos sociais e estéticos na cidade paulista.

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