O guitarrista do Sepultura, Andreas Kisser, concedeu uma entrevista exclusiva à VEJA para falar sobre o fim da banda, o novo EP e a turnê de despedida. Aos 42 anos de carreira, o grupo encerra suas atividades no auge da criatividade, não por problemas internos. Kisser reflete sobre como a morte de sua esposa, Patrícia, influenciou sua visão de finitude e o ensinou a viver melhor.
Turnê de despedida e novo EP
Kisser afirma que a banda está mais unida do que nunca, o que motivou a decisão de parar. "Fizemos um EP sensacional, estamos preparando um disco ao vivo para 2027 e a turnê está indo muito bem. Não é uma despedida porque estamos com problemas. Queremos manter a criatividade em alta e explorar outros territórios. Talvez no futuro a gente volte. Ou não. Mas isso é irrelevante agora."
O novo EP, intitulado The Cloud of Unknowing, aborda temas políticos, religião, raça e espiritualidade. Kisser explica: "A arte tem a função de estimular pensamentos e tirar as pessoas da zona de conforto. Expressar opinião é ser político — mas quem escuta pode ter uma interpretação diferente do que tivemos a intenção de dizer. Então, não crio expectativas."
Reconhecimento internacional e agenda
O Sepultura é mais reconhecido fora do Brasil do que no país de origem. Kisser atribui isso à ignorância em relação ao gênero: "O heavy metal é uma nação inclusiva, que abraça todo o tipo de pessoa. Mas não se fala disso, só olham para os estereótipos."
Neste mês, a banda tem agenda lotada de shows nos Estados Unidos, e ainda neste ano seguirá para a Europa. Ao fim da turnê, Kisser planeja se dedicar a projetos paralelos: "Coisas que me desafiem como artista e como pessoa. Cada um dos integrantes já toca projetos paralelos. No meu caso, tenho um programa na Rádio Rock e outra banda, a De La Tierra. Cuido ainda do movimento Mãetricia, sobre cuidados paliativos, e do festival beneficente Pat Fest."
Luto e finitude
Esses dois projetos nasceram em homenagem à sua esposa, Patrícia, que morreu de câncer em 2022. Kisser reflete: "A morte tem me ensinado a viver melhor, a respeitar a finitude. Morte não é derrota, não é punição. Ela é inevitável, por isso o presente é tão importante. O caso da Patrícia era clássico de eutanásia e passei a questionar a razão de não falarmos sobre isso aqui. Precisamos falar de morte neste país."
Perguntado sobre quanto o luto influenciou a decisão de encerrar as atividades da banda, ele responde: "Não foi a razão principal, mas mudou minha ideia de finitude. Com a turnê, sinto que encerramos um ciclo."
Rock in Rio e legado
Para o Rock in Rio, o Sepultura prepara um setlist especial, apenas com músicas de 1998 para cá, quando Derrick Green entrou na banda. "Será algo único e exclusivo."
Por fim, Kisser reflete sobre o legado: "Muita gente não vai nem saber que o Sepultura existiu e outros vão ter uma relação conosco para sempre, e isso é fantástico. Agradeço por esses fãs que mantiveram a banda relevante por 42 anos."



