Tradutora australiana dedica 10 anos a nova versão em inglês de 'Grande Sertão: Veredas'
10 anos para traduzir Guimarães Rosa para o inglês

Tradutora australiana dedica uma década para recriar 'Grande Sertão: Veredas' em inglês

Alison Entrekin, uma das mais renomadas tradutoras da literatura brasileira para o inglês, passou exatos dez anos imersa na monumental tarefa de traduzir Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. A nova versão, intitulada Vastlands: The Crossing, está programada para chegar às livrarias em janeiro de 2027, quase simultaneamente ao lançamento de uma nova tradução alemã da obra, que demandou quinze anos de trabalho.

Desafios linguísticos e a plasticidade da língua

Em entrevista exclusiva, Entrekin detalhou as complexidades enfrentadas durante o processo. "A língua é bastante plástica em qualquer idioma", afirmou, referindo-se aos neologismos criados por Rosa. Ela explicou que, embora essa parte fosse desafiadora, foi relativamente tranquila após entender as regras do autor. A sintaxe oral, com orações ambíguas e conjunções inventadas, representou uma dificuldade maior, exigindo imersão profunda para capturar a dimensão da oralidade.

Para a palavra sertão, Entrekin optou por mantê-la em português em certos trechos, utilizando recursos contextuais para esclarecer seu significado aos leitores anglófonos. "Para mim, sertão é uma localização, um lugar real, e um lugar imaginário brasileiro", destacou, enfatizando a importância de preservar a palavra para momentos-chave da narrativa.

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Pesquisa meticulosa e colaborações essenciais

Um dos aspectos mais trabalhosos foi a tradução dos sinônimos para o diabo enumerados por Riobaldo. Entrekin realizou uma pesquisa etimológica extensa, rastreando origens em mitologias indígenas e africanas para recriar termos em inglês. Por exemplo, transformou azarape em azard, baseando-se em raízes árabes compartilhadas entre as línguas.

A tradutora também contou com a ajuda crucial do engenheiro Paulo Salles, que passou décadas mapeando os caminhos de Riobaldo em Minas Gerais. Seu trabalho, detalhado no livro Anatomia do Grande Sertão, permitiu a Entrekin resolver dúvidas sobre topônimos e evitar erros na tradução. "Ele me salvou de várias encrencas", reconheceu.

Impacto e contexto literário

Com a obra completando 70 anos em 2026, a nova tradução surge em um momento de renovado interesse pela literatura brasileira no exterior. Entrekin observou que projetos recentes, como as retraduções de Clarice Lispector, abriram caminho para clássicos modernistas. Apesar da influência de Rosa, ela notou que autores contemporâneos brasileiros mostram mais marcas da literatura anglófona e da autoficção.

O lançamento será acompanhado por uma edição comemorativa, audiobook, biografia inédita de Guimarães Rosa e eventos culturais no Brasil. Nos Estados Unidos e Canadá, a Simon & Schuster será a editora, enquanto a Bloomsbury cuidará dos países da comunidade britânica.

Próximos passos e projetos futuros

Após concluir a tradução, Entrekin já se dedica a novos trabalhos, incluindo obras de Paulina Chiziane e Djaimilia Pereira de Almeida, além de escrever seu próprio livro sobre a experiência com Grande Sertão: Veredas. Ela refletiu sobre a jornada: "Devo ter lido o livro do começo ao fim pelo menos 20 vezes", revelando a profundidade do compromisso com a obra que considera uma das mais importantes da literatura mundial.

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