Filme 'Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria' explora o lado B da maternidade
Novo filme com Rose Byrne aborda maternidade em crise

Um movimento significativo tem ganhado força em Hollywood, trazendo para as telas narrativas cruas sobre o lado menos glorificado da maternidade. Longe dos clichês felizes, filmes recentes têm explorado o desgaste físico e mental, a depressão pós-parto e o desespero silencioso que muitas mulheres enfrentam. Essa tendência, que ganhou impulso com produções como "Tully" (2018) e "Respire Fundo" (2021), atinge um novo patamar de intensidade em 2025.

O ápice do realismo materno no cinema

O ano de 2025 parece marcar um ponto de virada na forma como o cinema retrata a crise materna. Após filmes como "Adalynn" (2023) e "MOM" (2024), que mesclavam o tema com elementos de terror, e do impactante "Morra, Amor" com Jennifer Lawrence, chega agora uma das obras mais contundentes: "Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria". O filme, escrito e dirigido por Mary Bronstein, é baseado em uma experiência real vivida pela cineasta durante o período em que sua filha enfrentou uma doença grave.

A trama acompanha Linda, vivida pela aclamada atriz australiana Rose Byrne, em um estado de desespero absoluto desde os primeiros minutos. Sem prólogos ou explicações fáceis, o espectador é lançado diretamente no caos emocional da personagem, que cuida sozinha da filha doente enquanto o marido está em uma viagem de trabalho prolongada. Aos poucos, revela-se uma situação sufocante que a leva ao limite da sanidade mental.

Rose Byrne e a construção de um personagem em frangalhos

Em entrevista exclusiva, Rose Byrne revelou que foi a estrutura narrativa do roteiro que a cativou. "Devorei o roteiro em uma sentada e pensei 'que personagem incrível'", disse a atriz. "E como vai ser empolgante fazer uma engenharia reversa para entender como ela chegou a esse ponto em que a encontramos. Muito pouca informação é dada ao público. Você é jogada ali, como uma bolinha de gude dentro do fogo".

Byrne, que já demonstrou seu talento versátil em comédias como a série "Amor Platônico" (Apple TV) e em dramas históricos como "As Vidas de Gloria", entrega aqui uma atuação visceral. Sua personagem não encontra alívio nem no psicanalista, interpretado de forma surpreendente pelo comediante Conan O'Brien. A atriz consegue transmitir o colapso gradual com uma naturalidade assustadora, sem recorrer a maneirismos ou indicativos de que aquilo é uma atuação.

A performance é considerada uma forte candidata a indicações nos principais prêmios do cinema, alívio citado pela própria crítica que acompanha a consolidação de Byrne como uma das grandes intérpretes de sua geração.

Um elenco surpreendente e os desafios reais por trás das câmeras

Um dos elementos mais interessantes do filme é o envolvimento de Linda com James, o gerente do motel para onde ela se muda após um desastre em sua casa. Esse personagem crucial é interpretado pelo rapper nova-iorquino A$AP Rocky, que vem construindo uma carreira cinematográfica promissora, com participação no último filme de Spike Lee, "Luta de Classes" (2025).

A presença de A$AP Rocky, que é pai dos três filhos de Rihanna, adiciona uma camada de discussão extra-filme. Enquanto a carreira do rapper se expande para o cinema, a de Rihanna, "milhões de vezes mais famosa", parece ter dado uma pausa desde que ela decidiu formar uma família. Esse contraste real ecoa, de forma não intencional, o próprio tema central do longa: os diferentes pesos e desafios da maternidade e paternidade na vida profissional.

Rose Byrne, que na vida real é mãe de dois meninos com o ator Bobby Cannavale, brincou sobre a diferença entre sua personagem no filme e Sylvia, sua personagem na comédia "Amor Platônico". "Temos que dar um jeito de botar umas birras no roteiro de 'Amor Platônico', aquelas crianças realmente não são nada realistas", disse ela, rindo, em referência aos filhos perfeitos da série.

"Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria" não é um filme fácil. É uma experiência intensa e, por vezes, dolorosa, que recusa oferecer respostas simplistas ou um final redentor convencional. No entanto, é um trabalho cinematográfico corajoso, com uma direção segura de Mary Bronstein e uma atuação antológica de Rose Byrne. Mais do que um filme sobre maternidade, é um retrato brutal sobre o isolamento, a resistência humana e os limites da sanidade quando confrontados com uma crise insustentável.

SE EU TIVESSE PERNAS, EU TE CHUTARIA

  • Quando: Estreia nesta quinta-feira (1°)
  • Onde: Cinemas
  • Classificação: 16 anos
  • Elenco principal: Rose Byrne, Conan O'Brien, Danielle Macdonald, A$AP Rocky
  • Produção: EUA, 2025
  • Direção: Mary Bronstein