Série 'Emergência Radioativa' na Netflix divide sobreviventes do acidente com césio-137 em Goiânia
Série sobre césio-137 divide sobreviventes do acidente em Goiânia

Série da Netflix sobre tragédia do césio-137 gera reações mistas entre sobreviventes em Goiânia

A estreia da série "Emergência Radioativa" na Netflix nesta quarta-feira (18) reacendeu memórias e dividiu opiniões entre os sobreviventes do acidente com césio-137 em Goiânia, ocorrido em 1987. A produção, que reconta o maior acidente radiológico do mundo fora de uma usina nuclear, já causa desconforto em parte da comunidade afetada, mesmo antes de sua exibição completa.

Divergências sobre a representação da tragédia

Alguns sobreviventes, que viram apenas os comerciais divulgados via WhatsApp, afirmam que a história não corresponde à realidade. Sueli de Moraes, vice-presidente da Associação de Vítimas do Césio-137, relata que "muita gente do grupo disse que não tinha nada a ver, que era mentira". As críticas vão desde a representação visual do pó radioativo até o desconforto de ver atores interpretando pessoas reais.

Por outro lado, Moraes destaca que "eu acho que não tem nada a ver" com as críticas, indicando que há divergências mesmo entre as vítimas. O acidente, que começou quando catadores abriram um aparelho de radioterapia abandonado, deixou quatro mortos imediatamente, mas a série menciona 16 vítimas fatais ao considerar os anos seguintes.

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Filmagens em São Paulo geram críticas adicionais

Parte do incômodo surge do fato de as filmagens terem ocorrido em cidades da Grande São Paulo, como Santo André e Osasco, em vez de Goiânia. Isso levou a críticas do Conselho Municipal de Cultura de Goiânia, que questiona a autenticidade da representação geográfica.

Paralelamente, a comunidade vive um clima de expectativa positiva com o anúncio do governador Ronaldo Caiado (PSD) sobre um reajuste de 70% nas pensões vitalícias. A proposta, enviada à Assembleia Legislativa de Goiás, prevê aumento de R$ 1.908 para R$ 3.242 para os mais afetados, beneficiando 603 pessoas cujos valores estão congelados desde 2018.

Equilibrando realidade e ficção na narrativa

Os produtores Caio e Fabiano Gullane afirmam ter buscado consultoria da Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen) e do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen), além de físicos e jornalistas. Eles reconhecem que "pouco precisou ser alterado" em termos de fatos, mas adaptações foram feitas para criar uma narrativa linear.

O ator Johnny Massaro, que interpreta o físico nuclear Márcio, explica que a série busca o "lado humano e dramático do caso", mas reconhece que "as feridas estão abertas" para as vítimas. Sua preparação incluiu visitas a locais reais, onde viu "toneis amarelos, radioativos, e as coisas que estavam na cidade".

Personagens reais e paralelos com a atualidade

A série inclui personagens baseados em figuras reais, como Celeste, inspirada em Leide das Neves, a menina de seis anos que morreu após ingerir césio. Elementos históricos precisos são mantidos, incluindo protestos contra o enterro da menina em Goiânia e disputas políticas sobre o destino do material radioativo.

Os produtores destacam paralelos com emergências de saúde pública recentes, como a pandemia de Covid-19. Medidas como confinamento em estádios, evacuações e demolições de casas em Goiânia ecoam respostas a crises sanitárias contemporâneas. Caio Gullane afirma que "as medidas adotadas em Goiânia hoje são referência para o mundo todo".

A maior parte dos materiais contaminados foi enterrada em Abadia de Goiás, onde deve permanecer por 300 anos, enquanto amostras são preservadas para pesquisa. A série, portanto, serve tanto como registro histórico quanto como reflexão sobre cooperação em crises, com Fabiano Gullane destacando que "pessoas que pensavam diferente tiveram que encontrar juntos uma solução".

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