De professor nos Urais a estrela em Hollywood: a improvável vitória no Oscar
Pavel Talankin, conhecido como Pasha, transformou-se de um simples coordenador de eventos em uma escola primária na cidade de Karabash, nos Montes Urais, para um vencedor do prestigiado Oscar de Melhor Documentário. Sua obra, Mr Nobody Against Putin (algo como "Zé Ninguém Contra Putin" em português), conquistou a estatueta dourada no último domingo (15/3), coroando uma jornada que começou com seu exílio forçado da Rússia no verão de 2024.
O humor como arma contra o autoritarismo
Antes da cerimônia, Talankin já aproveitava sua nova fama em Los Angeles, tirando selfies com astros como Leonardo DiCaprio e Ethan Hawke. "Eles são apenas pessoas normais como todos nós", comentou o diretor, que completa 35 anos e chegou à entrevista com balões rosa comprados para si mesmo. Seu humor característico surgiu até na curiosidade sobre o peso do Oscar: "Quanto ela pesa?", perguntou, brincando sobre as falsificações chinesas de plástico. A resposta é 3,86 kg.
David Borenstein, co-diretor americano baseado em Copenhague, destaca que o humor foi essencial para Talankin lidar com a realidade autoritária. "Pasha obviamente usou o humor como uma forma de lidar com o que estava acontecendo ao redor dele", afirmou Borenstein. "O humor sempre foi uma grande parte da vida sob as realidades diárias do autoritarismo. As piadas soviéticas estão entre as melhores piadas."
Denúncia da militarização nas escolas russas
O documentário, produzido pela BBC, revela como a invasão russa da Ucrânia em 2022 arrastou Talankin para a máquina de propaganda de Vladimir Putin. Seu trabalho na escola envolvia filmar apresentações estudantis, mas a guerra trouxe ordens do Kremlin para introduzir patriotismo, militarização e cerimônias de hasteamento da bandeira no currículo.
Talankin recebeu instruções para documentar a obediência da escola às novas diretrizes, tornando-se "uma espécie de fiscal dos professores". Ele se rebelou, enviando filmagens secretas para Borenstein via servidores criptografados. "Naqueles segundos eu fui movido pela raiva", recordou. "O principal é que ele exista, para mostrar o que está acontecendo."
As imagens mostram soldados do grupo mercenário Wagner ensinando crianças a identificar minas e manusear armas, além de aulas sobre "desnazificação" da Ucrânia. O filme também registra histórias de ex-alunos mortos em combate e o áudio angustiante de uma mãe chorando no túmulo do filho.
Atos de resistência e fuga para o exílio
Talankin realizou pequenos atos de rebeldia, como transformar símbolos pró-guerra "Z" em "X" e retirar a bandeira russa enquanto tocava Lady Gaga cantando o hino americano. Apesar dos riscos, ele recusa o título de corajoso: "Não, isso é apenas normal."
Borenstein discorda: "Eu o descreveria como alguém muito corajoso, que sente emoções de forma muito intensa e se importa profundamente com a verdade." A segurança era prioridade máxima, com protocolos rigorosos devido às severas penas na Rússia por atos como desrespeitar a bandeira nacional.
Quando um carro da polícia apareceu perto de seu apartamento, Talankin percebeu que era hora de fugir. Com a ajuda de produtores, ele cruzou a fronteira após apagar aplicativos seguros e esconder suas filmagens. Agora vive em local não divulgado na Europa, mas planeja retornar à Rússia "quando o regime cair".
Impacto e esperança para o futuro
O filme já circula clandestinamente em Karabash, após ser gravado digitalmente durante sua estreia no Sundance Festival. Talankin destaca que quase 200 mil professores deixaram seus empregos para não participar da doutrinação infantil. Ele espera que Mr Nobody Against Putin mostre aos russos que pensam como ele "que não estão sozinhos".
Mesmo sob o sol da Califórnia, a guerra permanece presente. No dia da entrevista, Talankin recebeu a notícia da morte de Nikita, um ex-aluno de 19 anos morto na Ucrânia. "Eu o conhecia. É um rapaz bondoso e ele nunca teria ido sem a propaganda", lamentou. Sua vitória no Oscar não apaga a dor, mas amplifica a mensagem de resistência.
