Das redações aos festivais: a origem soviética do primeiro filme de Kleber Mendonça Filho
Antes de ser aclamado como um dos principais cineastas brasileiros da atualidade, com indicações ao Oscar por O Agente Secreto, Kleber Mendonça Filho trabalhava como jornalista e crítico de cinema no Jornal do Commercio, em Recife. Foi nesse período que ele decidiu transpor para a realidade brasileira uma perturbadora lenda urbana soviética, dando origem ao curta-metragem Vinil Verde, realizado em 2003 e lançado no ano seguinte.
Uma história que atravessa continentes
O filme, que possibilitou a primeira participação de Mendonça no Festival de Cannes em 2005, conta a história de uma menina que ganha da mãe uma caixa com discos de vinil infantis, com uma ordem específica: todos podem ser ouvidos, exceto o de cor verde. Cada vez que a garota desobedece, consequências assustadoras atingem a mãe.
"O filme ganhou dezenas de prêmios e nunca deixou de ser visto nesses 20 anos", afirma o cineasta sobre a obra que marcou o início de sua trajetória cinematográfica.
A ponte entre Recife e o universo soviético
Quem apresentou a lenda urbana ao brasileiro foi a cineasta ucraniana Bohdana Smyrnova, com quem Mendonça havia estabelecido um relacionamento após se conhecerem em um festival em Belo Horizonte. "Eu conheço essa história desde a infância, porque é aquele tipo de história que as crianças contam umas para as outras", revela Smyrnova, que atualmente mora em Nova York.
A cineasta ucraniana explica que "o Kleber queria filmar alguma coisa [de terror], e eu comentei que tinha várias histórias assustadoras [no universo soviético]. Apresentei este gênero para ele e escolhemos esta [trama]".
Adaptação criativa e produção enxuta
Mendonça já demonstrava interesse por lendas urbanas, tendo realizado anteriormente o curta A Menina do Algodão, baseado na assombração de banheiros escolares. Para Vinil Verde, ele criou uma versão própria da lenda soviética, que originalmente tinha variações envolvendo discos verdes ou luvas verdes.
O filme foi concebido como uma montagem de fotografias, utilizando seis rolos de filme colorido de 36 poses. "O uso de fotos narrativas me atrai até hoje", ressalta o diretor, citando como inspirações o curta francês La Jetée (1962) e o filme brasileiro Jugular (1998).
A produção contou com uma equipe mínima: além de Mendonça e Smyrnova (creditada como roteirista), participaram o cineasta Daniel Bandeira na edição, as atrizes Verônica Alves e Gabriela Souza (mãe e filha na vida real e no filme), e a produtora executiva Isabela Cribari.
Significados profundos e reconhecimento crítico
Especialistas destacam que o curta já apresentava elementos que caracterizariam a obra posterior de Mendonça. Gisele Jordão, coordenadora do curso de cinema da ESPM, aponta a "confiança no dispositivo" e a habilidade de construir atmosfera "por meio de enquadramentos, duração dos planos e desenho de som".
Para além da adaptação da lenda soviética para o Recife, o filme desenvolve camadas semânticas profundas. Enquanto a versão original tratava da dicotomia entre obediência e culpa, Vinil Verde transforma-se em uma reflexão sobre amadurecimento e a relação entre gerações.
Daniel Bandeira, editor do filme, observa que "as relações entre as gerações são assim: os pais vão 'sumindo um pouco' à medida que 'os filhos vão crescendo'. É uma inquietação e um medo. Mas que também nos conecta com a experiência humana".
Trilha sonora e legado duradouro
A trilha sonora ficou a cargo do músico Silvério Pessoa, que compôs Luvas Verdes, uma música "soturna" que cria atmosfera de expectativa. Recentemente, Pessoa incorporou a canção em seu repertório autoral, apresentando-a em shows.
O site cultural francês SensCritique classificou o filme como "bastante incomum em todos os sentidos, modesto e formidável em sua abordagem", destacando que a obra marcou "o início de uma relação duradoura entre o festival [de Cannes] e o diretor".
Vinte anos após seu lançamento, Vinil Verde permanece como testemunho do talento precoce de Kleber Mendonça Filho e da capacidade do cinema de criar pontes entre culturas distantes, transformando lendas urbanas em reflexões universais sobre relações familiares, crescimento e a complexidade das emoções humanas.



