Filme brasileiro 'O Agente Secreto' perde prêmio de direção de elenco no Oscar
Brasil perde prêmio de direção de elenco no Oscar com 'O Agente Secreto'

O filme brasileiro O Agente Secreto não conquistou o prêmio de melhor direção de elenco na 98ª edição do Oscar, realizada em Hollywood. O brasileiro Gabriel Domingues representava o país na categoria técnica que fez sua estreia na maior premiação cinematográfica do mundo, mas a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas consagrou Uma Batalha Após a Outra, dirigida por Paul Thomas Anderson.

Representação brasileira na cerimônia

Em entrevista concedida à revista VEJA antes da premiação, Gabriel Domingues falou sobre a importância da indicação e destacou o papel do Brasil na indústria do cinema internacional. "Um latino-americano lá mostra como nós somos bons em cinema e que temos um povo que gera fascínio", afirmou o diretor de elenco. "A diversidade brasileira justifica a indicação. Temos atores de São Paulo, Minas Gerais, Rio, Bahia, Alagoas, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará, além dos estrangeiros".

Domingues ainda fez uma comparação artística ao mencionar que essa variedade de origens "me lembra o quadro Operários, de Tarsila do Amaral". O longa-metragem nacional recebeu quatro indicações ao Oscar neste ano, consolidando sua presença entre as produções mais destacadas da temporada.

Concorrentes na categoria

Além de O Agente Secreto e do vencedor Uma Batalha Após a Outra, concorriam ao prêmio de melhor direção de elenco os filmes:

  • Pecadores
  • Hamnet
  • Marty Supreme

Sinopse do filme brasileiro

O Agente Secreto acompanha a história de Marcelo, interpretado por Wagner Moura, um professor universitário que retorna para sua Recife de origem em 1977, durante a ditadura militar brasileira. Sob o disfarce de Armando, ele planeja pegar o filho e recomeçar a vida em outro lugar.

Nessa atmosfera opressora e misteriosa, onde criminosos agiam em nome de interesses próprios com apoio do Estado, Marcelo encontra na capital pernambucana outras pessoas com passados ocultos. Todos se abrigam em um prédio administrado por dona Sebastiana, vivida por Tânia Maria, onde diversas histórias se desenrolam em paralelo com a do protagonista.

O enredo mistura elementos trágicos, cômicos e até surreais, tudo ambientado durante a semana do Carnaval, aproveitando o colorido e a energia característicos do Brasil.

O fenômeno Tânia Maria

Entre os membros do elenco de apoio, Tânia Maria se destacou como uma verdadeira revelação. Aos 79 anos, a atriz se tornou um fenômeno mundial graças à personalidade irreverente que exibe como Dona Sebastiana, proprietária da estalagem onde os personagens se escondem da Ditadura Militar.

O papel foi escrito pelo diretor Kleber Mendonça Filho especificamente para a atriz, após ambos se conhecerem nos bastidores de Bacurau, onde Tânia atuou como figurante. A artesã, que viveu décadas dedicada ao artesanato sem nunca considerar a carreira de atriz, revelou à VEJA que nem sabia quem era Wagner Moura quando começou a contracenar com ele. "Eu digo que nunca ouvi nem falar. Eu nunca tinha assistido filme com ele. Aí foi normal", confessou.

A discussão sobre "não atores"

Gabriel Domingues abordou também a percepção internacional sobre o elenco do filme. "Nos Estados Unidos, eles acham que 90% do elenco é amador", revelou o diretor de elenco. No entanto, a realidade é bastante diferente: a maioria dos papéis de destaque em O Agente Secreto é interpretada por profissionais experientes.

Os chamados "não atores" - pessoas com pouca ou nenhuma experiência em dramaturgia - assumem papéis menores e foram encontrados por Domingues durante seu processo de pesquisa. Mesmo assim, o profissional resiste à nomenclatura, explicando que há "uma gradação infinita entre o 'não ator' e o profissional".

Como exemplo, citou o adolescente Robson Andrade, que interpreta Clóvis: "Talvez ele não fosse profissional, mas já tinha feito teatro na igreja e sonhava em aparecer no cinema. Meu trabalho é entender quanto as pessoas estão abertas a estar em cena".

Diversidade como elemento crucial

Segundo Domingues, a configuração diversificada do povo brasileiro foi um elemento fundamental para a consagração do filme entre os indicados ao Oscar. Além dos atores de diversas regiões do país, o elenco contou com talentos internacionais como o alemão Udo Kier, um dos atores mais prolíficos do ocidente.

Kier, que colaborou com cineastas renomados como Rainer Werner Fassbinder, Paul Morrissey e Lars von Trier, já era parceiro de Kleber Mendonça Filho há tempos - havia vivido o vilão Michael em Bacurau. O veterano ator faleceu aos 81 anos em novembro de 2025, pouco após a estreia do filme no Brasil.

Apesar da derrota na categoria de melhor direção de elenco, a presença de O Agente Secreto no Oscar representa um marco significativo para o cinema nacional, demonstrando a capacidade de produção brasileira em competir no cenário internacional com histórias autênticas e elencos diversificados que refletem a complexidade cultural do país.