Brasil na iminência de feito histórico no Oscar
A comunidade cinematográfica brasileira aguarda com expectativa o dia 15, quando será revelado se "O agente secreto", dirigido por Kleber Mendonça Filho, conquistará o Oscar de melhor filme internacional. Caso vença, o Brasil alcançará um feito extraordinário: tornar-se-á o primeiro país fora da Europa a ganhar o prêmio por dois anos consecutivos desde que a categoria se tornou competitiva em 1956.
O difícil bicampeonato internacional
Conquistar o Oscar de melhor filme internacional em edições seguidas é uma raridade na história da premiação. Até o momento, apenas quatro nações europeias conseguiram essa proeza:
- Itália com três dobradinhas: 1956-1957 ("A estrada da vida" e "Noites de Cabíria"), 1963-1964 ("Oito e meio" e "Ontem, hoje e amanhã"), e 1970-1971 ("Investigação sobre um cidadão acima de qualquer suspeita" e "O jardim dos Finzi-Contini")
- França também com três sequências: 1958-1959 ("Meu tio" e "Orfeu negro"), 1972-1973 ("O charme discreto da burguesia" e "A noite americana"), e 1977-1978 ("Madame Rosa, a vida à sua frente" e "Preparem seus lenços")
- Suécia em 1960-1961 ("A fonte da donzela" e "Através de um espelho")
- Dinamarca em 1987-1988 ("A festa de Babette" e "Pelle, o conquistador")
Vale destacar que o Japão também venceu em anos consecutivos (1954-1955), mas durante o período em que a categoria era considerada prêmio honorário, antes de se tornar competitiva.
O caminho para a vitória brasileira
Para alcançar esse marco histórico, o filme brasileiro precisa superar principalmente "Valor sentimental" da Noruega, único outro indicado na categoria que também concorre ao prêmio principal de melhor filme. A competição é acirrada, mas há um conforto estatístico: tanto Suécia quanto Dinamarca conseguiram suas dobradinhas logo após sua primeira vitória, padrão que se repetiria com o Brasil caso "O agente secreto" vença.
O domínio europeu e a evolução da Academia
A supremacia italiana e francesa na categoria é notável: Itália lidera com 14 estatuetas, seguida pela França com 12. Ambos os países também detêm o maior número de indicações (33 e 42 respectivamente). Esse domínio histórico tem explicações que vão além da qualidade cinematográfica.
Como explicou o diretor brasileiro Fernando Meirelles em entrevista anterior: "Lembro que, na divulgação de 'Dois papas', eu estive em um jantar da Academia para os membros italianos. Era um salão com umas 350 pessoas. Fizeram show, homenagem, toda aquela mega coisa e eram só os italianos. É muita gente. E o Brasil lá nessa época já tinha 20. Como é que a gente vai ganhar prêmio?"
Nos últimos anos, a Academia implementou medidas significativas para diversificar seu corpo de membros. De aproximadamente 6 mil membros em 2014, o número saltou para mais de 10 mil atualmente, com cerca de 30% residindo fora dos Estados Unidos. Para o Brasil, estima-se que hoje existam cerca de 60 membros brasileiros na Academia, número que tende a crescer com a vitória de "Ainda estou aqui" e novas regras que admitem automaticamente indicados à organização.
Panorama geral da categoria
Além dos países mencionados, apenas 15 nações possuem mais de um Oscar na categoria, enquanto outras 12 venceram apenas uma vez (incluindo o Brasil com "Ainda estou aqui"). Trinta e dois países receberam indicações sem nunca terem vencido, sendo Israel o recordista negativo com 10 indicações e nenhuma estatueta.
A possível vitória brasileira representaria não apenas um triunfo para a produção nacional, mas uma quebra significativa no padrão histórico de domínio europeu, abrindo caminho para maior diversificação nas premiações futuras.
