Harvey Weinstein revela confissões e omissões em entrevista exclusiva na prisão
Harvey Weinstein fala em entrevista na prisão sobre crimes e legado

As confissões e omissões de Harvey Weinstein em entrevista na cadeia

O ex-magnata hollywoodiano Harvey Weinstein, condenado a 16 anos de prisão por estupro e assédio sexual, concedeu sua primeira entrevista aprofundada desde que foi sentenciado, revelando detalhes sobre o cotidiano dentro do presídio, seu legado arruinado e suas ilusões sobre o futuro.

Publicada na revista The Hollywood Reporter em 10 de março, a conversa durou uma hora e foi organizada pelo repórter Maer Roshan, que já havia entrevistado o produtor no auge de sua carreira, em 1999.

Onde Harvey Weinstein está preso?

O produtor mais infame da indústria cinematográfica foi primeiro condenado em 2020, veredito que foi anulado anos depois, mas que não afetou a condenação obtida na Califórnia em 2023. Hoje, ele está preso em Rikers, instituição localizada em uma ilha acoplada à cidade de Nova York.

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Ao longo dos últimos três anos, Weinstein tem enfrentado múltiplas questões de saúde: entre elas a diabetes, uma cirurgia no coração e um câncer. Além disso, uma estenose espinal o faz recorrer à cadeira de rodas. Por conta disso, ele está em uma divisão hospitalar da prisão, afastado dos demais presidiários. Ele passa, em média, 23 horas isolado dentro da própria cela por dia.

“O mundo o considera um monstro, mas Harvey ainda se enxerga como a vítima”

Esta foi a conclusão de Roshan após uma hora de conversa com o criminoso: “Quando pressionado, ele admite que seu comportamento pode ter sido grosseiro, patético e até abusivo, mas ele insiste que não é estuprador — só um pateta hipersexual que tomou algumas decisões estúpidas e, por acaso, motivou um movimento social global”.

No momento, ele aguarda um novo julgamento, marcado para 14 de abril. Segundo Weinstein, o presídio em que está é um “inferno”: “Imploro para ir para uma prisão estadual, mas a promotoria exige que eu fique aqui até o julgamento”.

O antigo magnata ainda diz que sua fama o prejudica e o impede de socializar com outros detentos, que o pedem dinheiro e outros favores: “Sou constantemente ameaçado e ridicularizado. Não vou durar muito aqui”. Em outro momento, foi direto e desabafou: “Não quero morrer aqui”.

Weinstein relata apenas um episódio passado de agressão, quando perguntou se um detento tinha terminado sua ligação do dia e levou um soco na cara.

Contato com o mundo externo e rotina na prisão

Quanto ao contato que tem com o mundo externo, o criminoso fala apenas com três de seus herdeiros: a filha mais velha, de 30 anos, e os dois adolescentes, um de 12 e outro de 15. As outras duas filhas trocaram de sobrenome e não falam com ele há seis anos. Ele também recebe cartas de universitários que pedem conselhos sobre a indústria.

Para matar o tempo, o ex-produtor lê livros e assiste filmes por meio de um tablet oferecido pela instituição, que cobra 4 dólares e 95 centavos por longa. Weinstein também diz que lê as principais publicações sobre a indústria cinematográfica, mas que cada edição chega com duas semanas de atraso.

Questionado sobre conversas acerca da sétima arte com outros presos, afirma: “Não, eles só querem saber de Quentin Tarantino. Não é o público de Shakespeare Apaixonado”.

Os crimes de Harvey Weinstein

A pena cumprida por Weinstein diz respeito a condenações de estupro, copulação oral forçada e má-conduta sexual de terceiro grau.

Questionado se conhecia Jeffrey Epstein, ele nega e se distancia do financista: “Os crimes que o acusam são horrorosos. Não se assemelham em nada com os meus”.

Weinstein acusa suas vítimas de terem recebido valores que vão das centenas de milhares de dólares até os milhões por meio de acordos pagos pela Walt Disney Company e defende que poucos dos casos foram litigados em tribunal.

Questionado sobre os termos de confidencialidade que impôs sobre vítimas e testemunhas, ele mantém que queria esconder casos extraconjugais, não abusos, e ainda culpou algumas das mulheres que vieram a público, dizendo que “quando um cara te chama pro quarto de hotel dele no meio da noite, você sabe o que vai acontecer”.

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Na visão de Weinstein, seus crimes não são tão graves pois, supostamente, não fez uso da força bruta. Uma gravação obtida pela polícia de Nova York, contudo, registra a intimidação verbal agressiva exercida por ele contra a modelo Ambra Gutierrez. Quanto a isso, diz que estava tentando apenas ser sedutor.

A mea-culpa parcial

Questionado sobre suas falhas, Weinstein admitiu: “Eu passei do limite, com certeza. Eu era capaz de ser um bully terrível. Usei meu poder de forma arrogante. Fui teimoso e insistente. Me sinto muito mal, fico envergonhado desse comportamento e agora o enxergo de outra forma”.

Hoje, ele diz que “teria respeitado mais aquelas mulheres” e “teria sido fiel ao casamento”. Também alega que, se pudesse voltar atrás, teria vivido uma vida pacata longe da indústria.

Para além do adultério, o antigo mandachuva se recusa a pedir perdão por ter assediado ou abusado qualquer mulher: “Não vou me desculpar pelo que não fiz. Minha inocência será comprovada, isso eu prometo”.

Hoje, Harvey Weinstein também sofre pela distância de antigos amigos — Bradley Cooper, Ted Sarandos, Gwyneth Paltrow e Jeffrey Katzenberg, nominalmente — e de seu evento favorito, o Oscar. Ainda assim, ele acompanha a premiação o suficiente para declarar torcida: quer que Paul Thomas Anderson, de Uma Batalha Após a Outra, e Ryan Coogler, de Pecadores, compartilhem o troféu de direção.